Via contemplativa: um chamado especial?

Ir. Ariane Heringer Tavares, EP

Como atingir uma total união com Deus? Será este um caminho disposto pela Providência somente para aquelas almas muito eleitas, chamadas a uma vocação especial?

Conforme os ensinamentos de diversos teólogos, todas as almas em estado de graça são chamadas à contemplação infusa, ou seja, a um convívio celestial, possuindo uma centelha da bem-aventurança de que gozam os justos no Céu. Aqui na terra, contempla-se a Deus como em um espelho. Somente no céu O “veremos como Ele é” (I Jo 3, 2). Com efeito,“não é que a graça da contemplação se dê aos grandes e não aos pequenos, senão que, com frequência, a recebem ambos; mais frequentemente os retirados e, algumas vezes, os casados”.1 Logo, não há estado algum entre os fiéis que possa ficar excluído desta graça, seja na tranquilidade de um claustro ou em meio às atividades da vida secular.

Isso se explica pelo fato de que todos os batizados, ao se tornarem participantes da natureza divina, recebem a graça santificante juntamente com as virtudes e os dons, que se desenvolvem com a caridade. Ora, segundo São Tomás de Aquino, “a vida contemplativa não se ordena a um amor qualquer a Deus, mas ao amor perfeito”.2 Portanto, é a virtude da caridade levada ao pleno desenvolvimento. Nesta perfeição de amor é que terá origem a fecundidade das ações próprias à vida ativa.

Ademais, é um bem que deve ser desejado e que não se nega àqueles que o procuram: “Se não fosse geral este convite, não nos chamaria o Senhor a todos, e ainda que chamasse, não diria: ‘Eu vos darei de beber’. […] Mas, como disse, […] a ‘todos’, tenho por certo que a todos os que não ficarem pelo caminho não lhes faltará esta água viva”.3

Recolhimento: conditio sine qua non…4

Entretanto, para que de fato a Santíssima Trindade faça dos homens a sua morada e os cumule com esta insigne predileção, se requerem algumas disposições espirituais, independentes do estado de vida em que se encontrem.

Além de um profundo desapego das coisas concretas, de uma inteira humildade e pureza de coração e da prática habitual das virtudes, é indispensável ainda outro fator que constitui condição indispensável para o desenvolvimento da vida contemplativa: o recolhimento. “Assim como a dissipação repele os bens divinos ou dificulta sua saudável influência, assim o recolhimento os atrai até nós e favorece sua eficácia”.5

Antes de tudo, é preciso esclarecer que recolhimento não é sinônimo de solidão ou silêncio. Estes são fatores que o tornam propício, mas não se confundem com ele. O recolhimento consiste, mais do que numa atitude exterior de afastar-se das ocupações do dia-a-dia, num estado de espírito que nada pode perturbar. “Uma alma recolhida é, pois, uma alma retirada das criaturas e que busca a Deus, sua vontade e seus desejos para conformar-se com Ele em tudo”.6

É um contínuo estado de oração no qual, mesmo em meio às mais diversas atividades, o coração e a mente estão sempre voltados para o sobrenatural. Em meio à dissipação e à agitação, dificilmente se poderá ouvir o chamado e as inspirações que o Espírito Santo sopra em nossas almas. “O silêncio da alma e dos sentidos exteriores é ‘a ajuda que prestamos a Deus para que Ele se comunique a nós’”.7 Mesmo os pecadores mais empedernidos, quando aprendem a ouvir essa voz interior, iniciam um processo de conversão que pode elevá-los aos altos píncaros da santidade, como narra Santo Agostinho em suas Confissões: “Eis que estavas dentro de mim e eu fora Te procurava. […] Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez”.8

Além de atrair para a alma todos os bens celestiais, o recolhimento é o melhor meio de fazê-los frutificar. Ele é como um motor para as boas obras, como o caule que liga o fruto à videira, visto que nos coloca em contato com o Onipotente e nos faz trabalhar tendo em vista não as criaturas, mas unicamente a glória de Deus.

A pessoa que assim procede alcança rapidamente a santidade e tem sua vida transformada:

[…] Outrora tinha as suas horas de meditação e oração; agora a sua vida é uma oração perpétua; quer trabalhe quer se recreie, quer esteja só ou acompanhada, incessantemente se eleva para Deus, conformando sua vontade com a d’Ele: ‘quae placita sunt ei facio semper’ (Jo 8, 29) [“Eu faço sempre aquilo que é do seu agrado”]. E esta conformidade não é para a alma senão um ato de amor e entrega total nas mãos de Deus; as suas orações, as suas ações comuns, os seus sofrimentos, as suas humilhações, tudo está impregnado de amor a Deus.9

Não nos faltam exemplos de como as comunicações divinas se fazem sentir sobretudo nos momentos de recolhimento e de como este leva a frutificar os dons recebidos na contemplação. Entre os inúmeros fatos que nos narram as Sagradas Escrituras, dois são especialmente dignos de nota.

Em primeiro lugar, tomemos os quarenta dias de retiro sobre o Monte Sinai. Antes de firmar com o povo de Israel a Aliança definitiva, em que se realiza a entrega das tábuas da Lei contendo o Decálogo, o próprio Deus convida a Moisés para que suba para junto d’Ele: “Sobe para mim ao monte e deixa-te estar aí” (Ex 24, 12). Exige o Senhor que seu servo se prepare e esteja à altura da missão de que será portador. Para isso, deseja que ele suba, ou seja, que se afaste das coisas terrenas. Moisés sobe, mas somente depois de sete dias de recolhimento o Senhor lhe dirige a palavra. “E, entrando Moisés pelo meio da nuvem, subiu ao monte, e lá esteve quarenta dias e quarenta noites” (Ex 24, 18).

Somente depois de quarenta dias de retiro e contemplação lhe são entregues as tábuas da lei…

Outro relato nesse sentido é a preparação para a descida do Espírito Santo. Consta nos Atos dos Apóstolos que, após a ascensão de Jesus, os discípulos voltaram para Jerusalém e se reuniram no Cenáculo. Muitos deles ainda julgavam que aquele seria o momento da implantação do reino político do Messias e que obteriam com isso uma grande glória mundana.10 No entanto, apesar desse estado de espírito infelizmente reinante, é preciso reconhecer que estavam ali reunidos à espera do batismo de fogo que, segundo as palavras do Mestre, receberiam dentro de alguns dias.

Por isso, “todos estes perseveravam unanimemente em oração, com as mulheres, e com Maria, a Mãe de Jesus” (At 1, 14). Assim, a graça tinha meios para atuar e preparar suas almas para o precioso Dom que receberiam e em virtude do qual expandiriam a Igreja de Cristo por toda a terra. “Estavam recolhidos, modo excelente de preparação para os grandes acontecimentos”11. Passaram-se dez dias de contínua oração até o cumprimento da promessa de Nosso Senhor. “Em geral, Cristo ressurrecto escolhia oportunidades como estas — de reflexão e compenetração da parte de todos — para lhes aparecer, assim como o Espírito Santo para lhes infundir seus dons”.12

Passados esses dias de contemplação, os apóstolos retomaram novamente suas atividades e, através desse recolhimento regenerador, foram assumidos por um entusiasmo e um fogo que antes não possuíam.
Donde destacarmos a necessidade da contemplação para o sustento da vida espiritual, conceito tantas vezes esquecido nos dias atuais, tão penetrados pelo ateísmo e pelo pragmatismo.

[1] ROYO MARÍN, Antonio. Op.cit. p. 454: “[…] no es que la gracia de la contemplación se dé a los grandes y no a los pequeños, sino que con frecuencia la reciben los grandes y con frecuencia los pequeños; más frecuentemente los retirados y alguna vez los casados”. (Tradução da autora)
[2] SÃO TOMÁS DE AQUINO. Summa Teologiae, II-II, q.182, a. 4, ad 1: “[…] vita contemplativa non ordinatur ad qualemcumque Dei dilectionem, sed ad perfectam”. (Tradução Loyola. Doravante se utiliza sempre esta tradução para esta obra)
[3] SANTA TERESA DE JESUS. Camino de perfección. C. 19, 15. In: Obras completas. 9. ed. Madrid: BAC, 2006, p. 319: “Si no fuera general este convite, no nos llamara el Señor a todos, y aunque los llamara, no dijera: ‘Yo os daré de beber’. […] Mas como dijo, […] ‘a todos’, tengo por cierto que todos los que no se quedaren en el camino, no les faltará esta agua viva”. (Tradução da autora)
[4] Condição indispensável. (Tradução da autora)
[5] ROYO MARÍN, Antonio. La vida religiosa. Madrid: BAC, 1975, p. 442: “Así como la disipación rechaza los bienes divinos o dificulta su saludable influencia, así el recogimiento los atrae hacia nosotros y favorece su eficacia”. (Tradução da autora)
[6] Ibid. p. 439: “Un alma recogida es, pues, un alma retirada de las criaturas y buscando a Dios, su voluntad y sus deseos, para conformarse a Él en todo”.(Tradução da autora)
16 M-BRUNO. Op. cit. p.30: “Le silence de l’âme et des sens extérieurs est ‘l’aide que nous prêtons à Dieu pour qu’Il se communique à nous’”. (Tradução da autora)
[8] SANTO AGOSTINHO. Confissões. Madrid: BAC, 2013, p. 385: “Et ecce intus erat et ego foris, el ibi te quaerebam […]. Vocasti et clamasti et rupisti surditatem meam”. (Tradução da autora)
[9] TANQUEREY. Op. cit. p. 613-614.
[10] A Autora se lembra de ter ouvido este comentário de Monsenhor João Scognamiglio Clá Dias inúmeras vezes, em diversas homilias, nas missas celebradas diariamente para seus filhos espirituais na Basílica de Nossa Senhora do Rosário, Caieiras, São Paulo.
[11] CLÁ DIAS, João Scognamiglio. E renovareis a face da Terra. O inédito sobre os Evangelhos. Comentários aos Evangelhos Dominicais. Advento, Natal, Quaresma e Páscoa – Ano A. Città del Vaticano – São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2012, v. I, p. 398.
[12] Ibid. p. 407.

Necessidade do sacrifício

Ir Mirna Gama Máximo, EP

O senhor Deus expulsou-o (Adão) do Jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra de onde tinha sido tirado. E expulsou-o; e colocou ao oriente do Jardim do Éden querubins armados de uma espada flamejante, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3,23-24).

O homem, depois de ter pecado e ter sido expulso do Paraíso, onde vivia em estado de graça, perdeu aquela pureza e inocência primevas e adquiriu uma infinita dívida diante de Deus. Sabia que merecera a morte como castigo de sua culpa e viu-se na contingência de reparar seu pecado, para que, purificado, se reconciliasse com o Criador e fosse salvo. Por este motivo, passou a oferecer-Lhe algo que de certa forma compensasse sua dívida, como por exemplo, a vida de um animal.

A ofensa feita a Deus exige uma reparação. Como honrar Deus de ora em diante, sem efetuar inicialmente alguma espécie de reparação, que apague a injúria? Já que incorremos em seus justos castigos, como não nos apressarmos em afastá-los, prioritariamente por alguma espécie de satisfação, antes de implorar seus favores? Esta é a necessidade que visa, ou procura atender, o sacrifício expiatório.1

Eis o que significava a maioria dos sacrifícios do Antigo Testamento.2 Royo Marín assim define:

O sacrifício é o ato mais importante do culto externo e público, o mais solene e excelente com que se pode honrar a Deus. […] Em sentido estrito, se define: a oblação externa de uma coisa sensível com certa mutação ou destruição da mesma […] para testemunhar seu supremo domínio e nossa completa sujeição a Ele.3

Vemos, assim, que o homem sentia uma grande necessidade de oferecer sacrifícios. E São Tomás 4 aponta três motivos para tal. Primeiramente para remir o pecado, que afasta o homem de Deus. Em segundo lugar, para que o homem possa conservar-se no estado de graça, sempre unido a Deus, no que consiste sua paz e salvação. Finalmente, para que o espírito do homem esteja perfeitamente unido a Deus, como acontecerá na glória.

sacrificio_caim_abelOs sacrifícios não eram feitos somente em função dos pecados, mas eram também uma forma de louvar a Deus e honrá-Lo. Assim, os sacrifícios podiam ser: lautréticos, de simples adoração a Deus; impetratórios, para pedir benefícios; satisfatórios, em reparação dos pecados; e eucarísticos, em ação de graças pelos benefícios recebidos.5 Portanto, não só os pecadores deveriam oferecê-lo, mas também os justos.

Para esses sacrifícios, deveriam os homens, oferecer o que possuíam de melhor, o que tinha maior valor e perfeição. Assim sendo, queimavam frutos e imolavam animais, tais como cordeiros e pombas, entre outros tipos de oferecimento.

Ora, o Salmo diz: “Vós não Vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu Vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis. Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar” (Sl 50, 18-19). Qual seria, então, a razão da importância e a necessidade de oferecer sacrifícios?

De fato, de nada adiantam as práticas meramente exteriores se não houver sinceridade de coração. O homem não é puro espírito, mas sim, um composto de corpo e alma. Portanto, suas disposições interiores devem ser exteriorizadas de alguma forma.

“Faltaria algo para oferecer a Deus se Ele fosse homenageado somente em espírito. […] A vida do espírito se apaga se não for traduzida para uma linguagem feita para nossos sentidos”.6 Assim também se exprime o Doutor Angélico: “Todo aquele que oferece um sacrifício deve dele participar, porque o sacrifício que se oferece exteriormente é sinal do sacrifício interior, pelo qual a própria pessoa se entrega a Deus”.7

O sacrifício na vida do homem

Ao deitarmos um rápido olhar sobre a História, vemos como todos os povos das mais diversas religiões e épocas ofereceram sacrifícios. Porém, quantos deles provocaram a ira e o desgosto de Deus, pois eram dirigidos a deuses inexistentes, sendo, na realidade, ocasião das piores idolatrias e de práticas abomináveis! Os babilônios e os persas, por exemplo, ofereciam sacrifícios humanos. Os príncipes fenícios imolavam o filho predileto para abrandar a cólera dos deuses. Os sacerdotes astecas, no México, exigiam vinte mil vítimas humanas por ano, das quais arrancavam o coração ainda palpitante, para o apertarem sobre os lábios do ídolo.8 Eram religiões falsas e vãs, que, assim, também invalidavam seus sacrifícios.

O povo eleito também ofereceu sacrifícios. O que dizer sobre seus sacrifícios? Instruído pelo próprio Deus, os israelitas apresentavam, de maneira distinta, os sacrifícios de louvor, de agradecimento, de reparação, de acordo com quem iria oferecê-lo: sacerdote, chefe ou homem do povo (cf. Lv 1-7). Esses sacrifícios eram agradáveis a Deus, como provam algumas passagens da Escritura, entre as quais a seguinte:

Depois do dilúvio que Deus mandou à Terra por castigo de seus pecados, Noé saiu da arca e levantou um altar, e ofereceu em holocausto. “O Senhor respirou um agradável odor” e prometeu não mais amaldiçoar a Terra, como tinha feito (cf. Gn 8, 20-21).

Porém, eram sacrifícios imperfeitos e defeituosos; não podiam apagar os pecados nem conferir a graça. Como a imolação de um animal irracional poderia reparar as ofensas contra Deus, que é infinito, puro e perfeito? Como devia ser terrível ter a alma manchada por causa dos pecados, a consciência inquieta por ter ofendido ao Deus-Justiça, Senhor dos exércitos, e, pior ainda, passar a vida inteira fazendo penitência e oferecendo sacrifícios sem ter a certeza de estar perdoado!

Mas Deus não abandonou o seu povo nas mãos da morte. “Esses sacrifícios foram apenas o grito de ignorância da humanidade que clamava por um perfeito sacrifício de expiação e reconciliação”.9 Por sua misericórdia e bondade infinitas, Ele mesmo Se tornaria sacrifício para redimir a humanidade perdida. Nem os frutos, nem os animais, nem mesmo o homem, culpado do pecado, seriam capazes de restabelecer a nossa amizade com o Senhor. Só Deus, Infinito e Santo, pode apagar a ofensa feita contra Si mesmo. Foi assim que, na plenitude dos tempos, o Verbo Se fez carne para resgatar, pela sua própria morte, os que estavam condenados à morte.

Todos os sacrifícios oferecidos até então foram meras pré-figuras deste supremo e perfeitíssimo sacrifício!

1 AA.VV. Eucharistia. Encyclopédie populaire sur l’Eucharistie. Paris: Bloud et Gay, 1947, p. 154. (tradução da autora).
2 PARSCH, Pius. Para entender a Missa. 2. ed. Rio de Janeiro: Mosteiro São Bento, 1938, v. III, p. 14.
3 ROYO MARÍN, Antonio. Teología Moral para Seglares. 2. ed. Madrid: BAC, 1961, v. I, p. 286.
4 TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. III, q. 22, a.2.
5 Cf. ROYO MARÍN. Teología Moral para seglares. Op. cit. p. 286.
6 AA.VV. Op. cit. p. 153.
7 TOMÁS DE AQUINO, Santo. S. Th. III, q.82, a. 4.
8 FIGUEIREDO, Pedro Paulo de. Adoração a Deus: o sacrifício. Arautos do Evangelho. São Paulo, n.11, nov. 2002. p. 17.
9 PARSCH, Pius. Op. cit. p.11

Obedecer: como?

Irmã Clara Isabel Maria de la Asunción Morazzani Arráiz, EP

A obediência vale mais que as vítimas; e é melhor obedecer do que oferecer a gordura dos carneiros” (1Sm 15, 22) .

A palavra obediência, derivada do latim, ob audire, significa ouvir ou escutar. A obediência implica, pois, da parte daquele que a pratica, uma atitude de escuta submissa e atenta com relação aos conselhos ou ordens que o superior venha a lhe dar.

Vejamos agora os diversos graus da perfeição da obediência, definidos por Santo Inácio de Loyola em sua carta aos religiosos de Portugal1:

1°) Obediência de execução:

Como indica seu nome, trata-se de uma obediência meramente natural, que executa exteriormente as ordens do superior, sem conformar a vontade com a deste. Esta obediência carece totalmente de méritos sobrenaturais e mais se parece ao automatismo de uma máquina.

2°) Obediência de vontade:

Implica numa submissão interna, por parte do inferior, em relação à vontade do superior. Aquele considera este como representante de Deus nesta terra e submete sua vontade alegremente, disposto a superar todos os sacrifícios que lhe são exigidos, ainda que experimente uma involuntária repugnância, nascida de sua natureza, em relação à ordem recebida. Esta repugnância, ao contrário, lhe proporcionará um aumento dos méritos. Assim afirma São Tomás de Aquino:
“Se porém, o ato prescrito não é de maneira alguma querido por si mesmo, contraria a própria vontade, como ocorre nas coisas difíceis, então fica absolutamente evidente que a ordem só é cumprida por causa do preceito”.2

Por isso Gregório afirma: “A obediência que se realiza plenamente quando é agradável é nula ou menor”, porque a vontade própria não parece tender essencialmente ao cumprimento do preceito, mas simplesmente à satisfação de seu próprio querer. “Nas dificuldades, porém, ou em coisas difíceis a obediência é maior”, porque a vontade própria não tende a outra coisa a não ser ao cumprimento do preceito.

Entretanto, a obediência de vontade, não atinge ainda a suprema perfeição nesta virtude. “Com a obediência de vontade, assinala Royo Marín, cabe ainda a discrepância de juízo”.3

3°) Obediência de juízo:

Este último grau de obediência é assim definido por Royo Marín:

Consiste em obedecer a ordem recebida, não somente com prontidão de vontade, mas rendendo inclusive nosso juízo interior para conformá-lo com o do superior”.4

Assim se exprime o próprio Santo Inácio em sua famosa carta: “Mas quem pretende fazer inteira e perfeita oblação de si mesmo, além da vontade, é necessário que ofereça o entendimento (que é outro grau e supremo da obediência), não somente tendo um querer, mas tendo um mesmo sentir com o superior, sujeitando o próprio juízo ao seu, em tudo o que a devota vontade possa inclinar o entendimento”.5

Em breves palavras, Maucourant nos descreve o estado de alma daquele que atinge essa plenitude: “A alma que chega a tal estado de união permanece humana, isto é, sensível às coisas exteriores, sensível à tentação e à prova; mas sua vontade permanece irrevogavelmente unida a Deus”.6

Séculos antes, São Basílio estabelecera uma escala na obediência, semelhante à definida por Santo Inácio:

Há três modos diferentes de obedecer: separando-nos do mal pelo temor do castigo, e, então, colocamo-nos numa atitude servil; ou com o objetivo de alcançar o prêmio oferecido, e neste caso assemelhamo-nos aos mercenários; ou por amor ao bem e por afeto àquele que nos manda, e então, imitamos a conduta dos bons filhos.7

A perfeição se cifra num supremo ato de amor, que chega ao holocausto da vontade e do entendimento, oferecendo a Deus a entrega radical do próprio ser. “Vivo, mas já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl. 2, 20).

Entre as muitas qualidades que caracterizam a perfeita obediência, há duas de capital importância e sobre as quais é forçoso falar. São elas: prontidão e alegria.

Prontidão

“Retardar uma ação que nos é mandada, explica Maucourant, é torná-la defeituosa, pois equivale a substituir-se à regra e aos superiores numa parte do ato, atribuindo-se o direito de determinar a hora”.8

Os exemplos na vida dos santos nos fornecem largamente argumentos para perceber o quanto Deus ama essa presteza e diligência em obedecer. Certa vez, contam as crônicas cistercienses, o sino do mosteiro tocou, chamando os monges para as tarefas de limpeza. São Bernardo achava-se neste momento arroubado em êxtase diante do próprio Jesus que lhe aparecera. Apesar disso, dispôs-se ele a atender a voz do sino. Ao voltar, encontrou Jesus que o esperava: “Bernardo, disse-lhe, se tu não me houvesses deixado, te haveria deixado Eu”.9

Na disciplina militar, o soldado que, recebendo a ordem de um oficial, não corre apressado para cumpri-la é condenado a algumas horas de prisão. Se assim se passa entre os homens do século, quanto mais deverá ser entre os servidores de Deus, não pelo temor do castigo, mas pelo amor Àquele que manda e que promete tantas recompensas?

Quem, pois, obedece prontamente, deve estar convicto de que, procedendo assim, está acumulando méritos duplamente e se assemelhará mais a Cristo que “entrando no mundo” exclama: “Eis que venho fazer a tua vontade”(Hb 10, 5.9).

Alegria

Para o obediente fervoroso, não basta apenas dar tudo e com presteza, é preciso dar alegremente, pois “Deus ama o que dá com alegria” (2Cor. 9, 7).

Quem obedece de má vontade e com queixas, não ama verdadeiramente a Deus, nem os mandatos transmitidos por seus ministros. Embora haja tanta glória, doçura e proveito em servir a Deus, prefere seus próprios interesses a doar-se inteiramente!

Essa alegria que deve acompanhar a obediência é qualificada por São Bernardo como “o colorido que faz a formosura desta e seu ornamento e brilho.10

Finalmente, esta alegria comove tanto o coração de Jesus Cristo, que Ele, por assim dizer, não pode resistir, nem negar nada àquele que assim procede. Por isso diz o Salmista: “Põe as tuas delícias no Senhor, e te concederá o que teu coração deseja” (Sl. 36, 4). Sirva como exemplo disto o patriarca Abraão que se apressou em cumprir, com alegria e confiança, a ordem dada por Deus de imolar o próprio filho e por isso mereceu dar origem ao povo da promessa. “Porque fizeste tal coisa, e não perdoaste a teu filho único por amor de mim, eu te abençoarei”(Gn. 22, 16).

1 1ROYO MARÍN, Antonio. La Vida Religiosa. 2. ed .Madrid: BAC,1968, pp. 350-351
2 S.Th. II-II , q.104, a. 2.
3 ROYO MARIN, Op. cit.p.352.
4 loc. cit.
5 Ibid. p. 355
6 MAUCOURANT, F. Probación religiosa de la Obediencia. Trad. del décimo millar francés por José Domingo Corbató. París: Garnier Hermanos, Libreros-Editores, 1901, p. 90
7 FERNÁNDEZ-CARVAJAL, Francisco. Antologia de textos. 13. ed. Madrid: Ediciones Palabra, 2003. , p. 674
8 MAUCOURANT, Op. cit. p. 111
9 ROYO MARIN, Op. cit. p. 366.
10 MAUCOURANT, Op. cit. p. 114.

O amor ao próximo: manifestação do amor a Deus

Jesus ensinandoEmelly Tainara Schnorr

O amor ao próximo é uma das mais belas manifestações do amor a Deus, através do qual, a lei atinge a sua plenitude, segundo ensina São Paulo: “Porque toda Lei se encerra num só preceito: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Gl 5, 14). Também foi do agrado do Divino Redentor deixá-lo para nós como elemento para a prática da virtude. Assim Ele determina:

“O próximo, eis o meio que vos dei para praticardes e manifestardes a virtude que existe em vós. Como nada podeis fazer de útil para mim, deveis ser de utilidade ao homem. Esta é a prova de que estou presente em vós pela graça: se auxiliais os outros com orações numerosas e humildes, se desejais minha glória e a salvação dos homens. Quem se apaixona por Mim, jamais cessa de trabalhar pelos outros, de modo geral ou particular, com maior ou menor empenho, segundo as disposições do beneficiado e do benfeitor”.1

Pendor natural para o amor mútuo

Se analisarmos sob um prisma meramente natural, há na natureza humana um pendor para o amor mútuo, desejoso de prestar auxílio e socorro aos demais, quando necessário, embora, muitas vezes, careça de algum relacionamento específico, mesmo até de conhecimento. Isso pela única razão de semelhança de espécies, que causa no homem uma grande alegria.2 Confirma o Eclesiástico: “Todo ser vivo ama o seu semelhante, assim todo homem ama o seu próximo. Toda carne se une a outra carne de sua espécie, e todo homem se associa ao seu semelhante” (13, 19-20).

Entretanto, devido ao pecado original, é impossível ao homem praticar a virtude estavelmente, sem o auxílio da graça. Desta maneira, se tão só nos limitarmos ao campo natural, a prática do amor ao próximo encontrará dificuldades ao deparar-se com egoísmos, invejas, rivalidades e interesses próprios, tanto de si mesmo como dos outros.3

O amor sobrenatural ao próximo

A virtude sobrenatural da caridade é a que proporciona as forças suficientes para superar todos esses obstáculos e misérias humanas, resultando num amor puro pelos demais:

“A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1 Cor 13, 4-7).

Se lançarmos um olhar sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, em diversas passagens do Evangelho, encontraremos n’Ele o modelo perfeitíssimo de caridade, dirigindo-se a Deus como Senhor e Pai, a Quem obedece e faz a vontade. Um tocante exemplo dá-se na Ceia derradeira, onde o Salvador faz uma oração ao Pai celeste, expressando o seu forte amor por Ele (Cf. Jo 17). Sua total aceitação em fazer a vontade do Pai está em sua súplica no Getsêmani: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39). E no momento da Ressurreição, ainda diz: “Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17).

Ora, este amor que Ele devotava ao Pai também se estendia aos pecadores, os quais eram também os seus próximos: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13). Jesus Cristo, portanto, assumindo todas as contingências de um corpo padecente, estava disposto a percorrer todas as cidades, aldeias e povoados em busca das almas que necessitavam de sua ajuda, beneficiando-as ao máximo. Não obstante entregou sua própria vida, de uma maneira ignominiosa, tendo como único objetivo nos resgatar e obter a nossa salvação eterna.

“Esse amor em Nosso Senhor Jesus Cristo é sobre todas as coisas. Porque Nosso Senhor Jesus Cristo amou o Pai e amou-nos até a morte de Cruz. Ele se entregou à morte, Ele se entregou à flagelação, Ele se entregou à Via Crucis, Ele se entregou à crucifixão por amor ao Pai e por amor a nós. Então, esta caridade, este amor não está à procura de nenhuma recompensa, de nada, é sobre todas as coisas e disposto a abandonar tudo!”4

Ademais, o Divino Redentor não se importou com todas as ingratidões e traições – sobretudo da parte dos mais íntimos – presentes ao longo de toda a sua vida pública. O que fizeram os Apóstolos no momento auge da Paixão? Fugiram (Cf. Mt 26, 56). Do mesmo modo, com que ingratidão São Pedro, São Tiago e São João responderam a Jesus na hora da agonia, no Horto das Oliveiras, por todo o bem que lhes havia feito? Com um sono profundo (Cf. Mt 26, 40), justo na hora em que Ele mais precisava de um apoio. Contudo, a atitude do Salvador foi a de aumentar ainda mais o seu amor por todos, a ponto de, no alto da Cruz, rogar a Deus que tivesse misericórdia de seus algozes: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

“Que todos sejam um”

E é a esta perfeição de amor ao próximo que Nosso Senhor nos convida, determinando o nível que a caridade deve atingir: “Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17, 21). Portanto, Ele deseja que em nós haja um amor e uma união análogos ao que há na Santíssima Trindade.

Desta forma, compreendemos que o amor ao próximo deve ser primeiramente coroado pelo amor a Deus, colocando-O no centro de todo e qualquer ato fraterno:

“Assim como a água verdadeiramente pura não é aquela que nasce nos vales sombrios, mas aquela que, saída do mais profundo das entranhas da terra, se eleva até o cume dos montes, de onde brota em veios cristalinos, assim também a verdadeira caridade não é o sentimento que tem sua origem nas afeições naturais, transitórias e caprichosas dos homens uns pelos outros, mas sim o amor que, saído do mais profundo do coração humano, se eleva a Deus, e de lá, em veio límpido e cristalino, desce, como do alto de uma montanha, sobre todas as criaturas.”5

Pela mesma razão, ainda podemos afirmar que quem não tem amor ao próximo, não possui verdadeiro amor a Deus, e quem não ama a Este não tem real amor àquele, pois ambos são indissociáveis entre si: “É impossível separar o amor sobrenatural ao próximo do amor de Deus, porque quem ama verdadeiramente a Deus, não pode deixar de amar o que Deus ama, e é sabido quanto Deus ama a todos os homens, a quem criou para o céu e a quem remiu com o preço de seu sangue”.6 São João, em uma de suas epístolas, também foi muito categórico ao asseverar esta verdade: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também o seu irmão” (1 Jo 4, 20-21).

E este amor aos irmãos deve ser desinteressado, isento de qualquer egoísmo, sem caprichos e apegos. Ou seja, por obrigação, o zelo fraterno tem de abarcar não só àqueles a quem se estima, mas também aos que se tem antipatias. Procurar, portanto, favorecer a todos e auxiliá-los na prática da virtude e da santidade, visando a sua salvação eterna.

Assim, a nossa atitude em relação aos demais deve ser de atenuar os defeitos alheios, perdoar todas as injúrias que nos são feitas e suprimir de nossas almas nossos próprios defeitos, os quais constituem empecilhos em nosso organismo espiritual, dificultando o bom progresso na prática da caridade fraterna.

“[…] Essa caridade deve ser praticada, eliminando os apegos, os amores estúpidos, humanos e egoístas, os amores-próprios, as ideias erradas que me levam a amar aquilo que não devo, etc. Tudo isto constitui obstáculos que eu preciso eliminar, que eu preciso pulverizar, que eu preciso tornar inteiramente inertes e anulados dentro da minha alma. Porque, sem tirar os obstáculos, esse amor não cresce em mim, os apegos me fazem diminuir nesse amor.”7

Ao progredir nesse amor fraterno, pode-se atingir píncaros inimagináveis, a ponto de operar naquele que o pratica uma disposição tal que, se for preciso, sacrifica a própria vida pelos outros, a exemplo de Nosso Senhor e que nos ensinou: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

1 SANTA CATARINA DE SENA. Op. cit. p. 39.
2 Cf. ROYO MARÍN, Antonio. Teología de la caridad. Op. cit. p. 363-364.
3 Loc. cit.
4 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do Domingo, da XXX Semana do Tempo Comum. Caieiras, 26 out. 2008. (Arquivo IFTE).
5 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A verdadeira caridade. In: Revista Dr. Plinio. São Paulo: Retornarei, n. 19, out. 1999. p. 12.
6 GONZALEZ Y GONZALEZ, Emílio. A perfeição cristã. Porto: Figueirinhas, [s.d.]. p 340-341.
7 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Homilia do Domingo, da XXX Semana do Tempo Comum. Op. cit.