A “oitava Palavra” de Jesus

Ir. Mariana Morazzani Arráiz, EP

Barrabás, famoso ladrão e assassino, o pior criminoso que Israel conhecera, encontra- se encarcerado na Torre Antônia, em Jerusalém. Era então costume entre os judeus, por ocasião da Páscoa, conceder a liberdade a algum preso, em memória da saída dos israelitas do cativeiro no Egito. O procurador romano na Judeia, Pôncio Pilatos, propõe dois nomes para o povo escolher: Barrabás ou Jesus.

Símbolo da ilegalidade, motivo de terror para todos, cujo aprisionamento constituía o alívio e a segurança da região, o maior malfeitor da época é contraposto Àquele que perdoava os pecados, curava leprosos, cegos e paralíticos, ressuscitava mortos e andara “por toda a parte, fazendo o bem” (At 10, 38)?

Ora, qual a gratidão suscitada por tantos ensinamentos, favores e milagres? O populacho, a uma voz, prefere Barrabás…

Surpresa e pânico do bandido

Podemos conjecturar a reação do chefe da prisão ao receber a ordem do magistrado romano de liberar naquele mesmo dia o terrível bandido.

— Soltar esse homem por causa de um absurdo costume judaico? Esse criminoso vai repetir suas loucuras! Vão se arrepender… Mas, enfim, cabe-me só cumprir ordens. Vamos!

Desce até o calabouço do Pretório e introduz a chave na fechadura de uma cela. Rangendo, abre-se a porta do repugnante recinto e o carcereiro chama:

— Barrabás!

Com os cabelos desalinhados, o olhar desvairado e cheio de terror, balbucia o delinquente:

— Vou ser crucificado?!

— Não! Fora daqui! — responde o guarda com rudeza e desgosto.

— Mas… o que vão fazer comigo?

— Fora!

Saindo, trêmulo, ainda indaga:

— O que aconteceu?

— Estás livre! Vá para a rua!

— Eu, livre? Eu, que já sentia as cordas nas minhas mãos e experimentava prematuramente a asfixia da crucifixão pela qual iria morrer! Eu, solto depois de tudo o que fiz? Eu, Barrabás, homicida detestado por todo o mundo?… Vou cobrir um pouco a cabeça para não ser reconhecido na rua… Preciso me disfarçar para sair, pois podem me matar. Mas… estou livre! Será possível? Eu me apalpo e vejo que… é verdade!

Sem rumo fixo, caminha aturdido pelas ruas de Jerusalém quando, de repente, escuta não muito longínquo o lúgubre rufar de tambores:

— O que é isso? O anúncio de uma crucifixão? Estão levando alguém para o suplício!

Experimentando um calafrio de pavor, suspira:

— Poderia ter sido eu… Oh, horror!

Continua em direção à turbamulta, que está quase chegando no Monte Calvário. Ao se aproximar, percebe a identidade do condenado: é Jesus de Nazaré… e vai ser crucificado!

A “oitava Palavra”

Se uma graça fulgurante de arrependimento rasgasse a sordidez de sua alma endurecida e nela penetrasse, Barrabás, cheio de compunção, ter-se-ia lançado aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, já deitado sobre o madeiro da Cruz.

Nesse momento, o Divino Redentor estaria experimentando em suas divinas mãos e adoráveis pés as inenarráveis dores ocasionadas pela perfuração dos pregos. Mas isso não O impediria de pousar seu sacratíssimo olhar na figura horrenda daquele a quem a perfídia dos homens tinha preferido a Ele, Jesus, o Filho de Deus, a Beleza Infinita.

Sob o influxo de tal graça, o criminoso, ajoelhado, diria:

— Senhor, eu deveria estar sendo crucificado e não Vós! Vós ireis morrer por mim quando sou eu, infame, merecedor desse castigo por meus pecados! Senhor, perdão por tanta maldade! Senhor, eu me arrependo, detesto meus crimes e quero me assemelhar a Vós!

E o Salvador teria pronunciado aí a primeira das Palavras, que não mais seriam sete, como registram os Evangelhos, mas oito; de seus divinos lábios brotaria esta manifestação de poder, bondade e amor infinitos:

— Meu filho, vá porque teus pecados estão perdoados! Vá porque soubeste aceitar as graças de penitência e de arrependimento que Eu mesmo para ti suscitei! Vá e não peques mais!

Somos também “barrabases”

A História não conta qual foi o destino de Barrabás uma vez fora da prisão. Ignoramos se continuou na esteira dos crimes e desvarios que o caracterizavam, enchendo novamente de sobressalto e pavor o povo que clamara por sua libertação, ou se houve uma conversão semelhante à que acabamos de imaginar.

Uma coisa é certa: a cada ano, na liturgia da Semana Santa, ao ser mencionado o nome do bandido na leitura da Paixão segundo São João, vibram os corações e ardem em desejos de vingar e reparar tamanha ignomínia.

É justo, porém, descarregarmos toda a nossa ira sobre o terrível criminoso, esquecendo que fomos nós também “barrabases” em algum momento da vida? Não ofendemos brutalmente o Coração de Jesus ao cometer um pecado ou ao apegar- -nos a um vício? E não agimos como o povo judeu escolhendo o famoso malfeitor, ao trocar a obediência aos Mandamentos por uma transgressão grave e voluntária à Lei?

Se alguma vez pecamos gravemente contra algum Mandamento da Lei de Deus, somos comparáveis a Barrabás e àqueles que o preferiram a Jesus! Deveríamos estar sendo crucificados, quando é Ele, ao contrário, que sofre por nós! Que terrível verdade: ao pecar, prefiro Barrabás como meu amigo e crucifico a Jesus em minha alma!

Em vista disso, o que farei? Formular essa pergunta é fruto de uma graça que parte de Jesus em direção a mim. Diante dela só cabe uma súplica à Mãe do perdão e da divina graça, cujos rogos me obtiveram esse benefício:

“Oh, Virgem Santíssima, minha Mãe, dai-me a convicção de que só existem dois caminhos: um é o de Barrabás e outro, o de Jesus.

“Quando vosso Divino Filho voltar no fim dos tempos para exercer o julgamento de todos os homens, reunidos no Vale de Josafá e não mais no Pretório de Pilatos, a humanidade estará dividida entre os que O quiseram crucificar e se entregaram ao pecado, e aqueles que aceitaram o convite de seu divino e arrebatador olhar, e quiseram viver sempre na sua graça e na prática da virtude.

“Pelos méritos infinitos da Paixão, fazei que eu esteja entre estes últimos!

“E se tiver a desgraça de Vos ofender, que eu me aproxime, com toda pressa, do Sacramento da Penitência e possa, arrependido e humilhado, ouvir aquela ‘oitava Palavra’ dirigida ao hipotético Barrabás convertido: ‘Vá, meu filho, minha filha, teus pecados estão perdoados!'”.

Adaptação da palestra pronunciada por Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP, em 27/5/1990 – Revista Arautos do Evangelho, Março-2015

Qual a mais importante chave do mundo?

Ediaine Bett
1º ano Ciências Religiosas

chaves

Por que se diz trancar a “sete chaves”? Qual a causa de não se dizer: guardar em sete caixas? O que a chave tem de misterioso a ponto de tornar-se a guardiã das coisas importantes? Qual foi a primeira chave da História?

Ora, ensina-nos a doutrina católica que o primeiro homem, Adão, foi criado por Deus com o barro desta Terra, e a primeira mulher, da costela de Adão. Contudo, eles não corresponderam ao chamado divino e pecaram, comendo o fruto da árvore proibida. Nossos primeiros pais foram expulsos do jardim do Éden e Deus “pôs diante do paraíso de delícias Querubins brandindo uma espada de fogo, para guardar o caminho da árvore da vida” (Gn 3, 24). Eis a primeira chave da História: uma espada de fogo.

No decorrer do tempo, à medida que a maldade humana se avolumava, fez-se necessário passar a chave em portas e janelas, armários e cofres, custodiar lugares importantes e encerrar coisas e pessoas que poderiam pôr em risco a segurança do próximo ou até da nação. Assim sendo, a chave tomou-se tão útil e necessária que surgiu um oficio especializado na sua fabricação e manutenção: os chaveiros.

A Igreja, mestra e sublimadora da ordem temporal, tomou-o e elevou-o à categoria de sacramental: os ostiários. Estes eram os encarregados das chaves da Igreja: eles abriam e fechavam as portas do local sagrado.

O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo adotou o símbolo da chave quando as deu a São Pedro dizendo: “Eu te darei a chave do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16,19).

Por essa razão, no brasão pontifício há duas chaves: a de ouro e a de prata. A primeira simboliza o poder sobre a ordem espiritual e a segunda sobre a ordem temporal.

Porém, há uma fechadura na qual nenhuma chave consegue entrar, nenhum chaveiro da terra consegue abrir. Inclusive o próprio Deus, em sua onipotência, muitas vezes permite que ela só se abra com nosso consentimento. Essa fechadura é o nosso coração. No seu interior, ninguém consegue penetrar, se nós não permitirmos. Sua porta não tem fechadura pelo lado de fora, mas somente pela parte de dentro. E, há certos momentos da vida, em que Deus bate de maneira especial na porta do nosso coração.

Por isso, há um piedoso dito que diz: “Temo a Jesus que passa e não volta”. Que Nosso Senhor Jesus Cristo nos dê a graça de sempre termos a porta de nosso interior inteiramente aberta para Ele e para o sobrenatural, e completamente lacrada para tudo o que não seja de Deus.

Maria, Estrela da Manhã

Fahima Spielmann

Nossa vida por vezes assemelha-se a uma noite cheia de adversidades e amarguras, que aguarda a luz da Eternidade. Em meio às ondas e tempestades, é em Maria Santíssima que sempre devemos confiar.

As cidades modernas, iluminadas por todo tipo de lâmpadas, não mais permitem contemplar um espetáculo natural de inteira simplicidade, e no entanto, cheio de grandeza: o céu estrelado.

Especialmente naquelas noites em que a Lua emite uma suave luz prateada, insuficiente para eclipsar o brilho dos mais longínquos corpos celestes, as estrelas evocam algo de sublime. Elas parecem transpor o mundo concreto e visível, servindo de hífen entre a esfera material e a sobrenatural. Por isso cantou o salmista: “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento a obra de suas mãos” (Sl 18, 2).

Correntes científicas modernas afirmam ser a ordem do universo obra do acaso. Mas, na mente de Deus, tudo existe em total perfeição, desde toda a eternidade, em função de seu fim e sua causa. Vendo, então, a especial prodigalidade do Criador em enriquecer o firmamento com tão generosa beleza e magnificência, poderíamos nos perguntar: o que esses astros representam?

Indo em pós desse simbolismo, reportemo-nos à noite de um navegante em alto mar. As horas passam e, ao mesmo tempo, o ponteiro do relógio parece não se mover. O cântico das ondas, poético durante o dia, transforma-se em um ruído atemorizador. O céu reveste-se de um negro manto que envolve o navio em incertezas. Nessas circunstâncias, nada pode mais alentar ao marinheiro do que a Estrela da Manhã, o astro pregoeiro da aurora, sinal do dia que está por chegar, dissipando as trevas traiçoeiras.

Nossa vida assemelha-se a uma grande noite, cheia de espinhos e amarguras, que aguarda a luz da eternidade. E, em meio às ondas e tempestades, é em Maria, a Stella Matutina, que devemos confiar. Com só sua presença faz brotar nos corações dos justos uma imponderável confiança. Diante d’Ela os anjos se enchem de gáudio, enquanto o demônio e seus sequazes, sempre prontos a armar ciladas para perder as almas, amedrontam-se e fogem para os bueiros do inferno…

Sempre disposta a socorrer os náufragos durante a noite, a Virgem Santíssima é o farol que nos guia para o grande alvorecer do dia perene e sem mágoa, o luzeiro que, imune às procelas do pecado, jamais deixa de fulgir.

Com a Encarnação do Verbo, fez Ela nascer entre nós o Sol de Justiça. Porém, quis o Pai que, precedendo a única e verdadeira Luz, surgisse antes no mundo outro clarão: a Mãe de Deus. Como a Estrela da Manhã, Maria assinala o fim das trevas do pecado e prenuncia a era da graça. Seu brilho suave, tamisado e atraente, prepara gradualmente o olhar dos homens para o fulgor do Astro Rei.

Uma vez que o próprio Cristo A elegeu por Mãe e A amou mais que a qualquer outra criatura, cresçamos cada vez mais em devoção a Ela. Peçamos-Lhe que sempre nos guie e nos aponte o caminho para o Céu, sobretudo em meio às mais ameaçadoras borrascas.

Riqueza de aspectos da Celebração Eucarística (Continuação)

Irmã Monica Erin MacDonald, EP

Microcosmos organizado de forma a elevar o espírito

O espaço em que a Celebração Eucarística se desenvolve está ordenado de modo a facilitar essa união da comunidade em Cristo.

Ao cruzar os umbrais do templo, a pessoa é envolvida por um ambiente que procura tirá-la da rotina cotidiana e fazê-la sentir-se na antessala do Paraíso. Ela entra num recinto sagrado, isolado tanto quanto possível das banalidades do mundo exterior, num microcosmos organizado de forma a elevar o espírito para os mistérios que vão ser celebrados. 10

Mas, ao mesmo tempo em que os limites entre o interior e o exterior são categoricamente definidos e separados, em sentido oposto, a fronteira entre o mundo físico e o espiritual se torna mais tênue e incerta. Porque a própria estrutura arquitetônica de um templo, independente do seu valor histórico ou artístico, está destinada a pôr o espírito face à grandeza do divino.

Assim, o lugar santo deve estar em perfeita harmonia com as palavras, gestos e atos litúrgicos que compõem a ação sagrada por excelência. A decoração, as vestimentas, os vasos sagrados podem ser ricos ou simples, mas sempre dignos e adequados à elevada função à qual se destinam.

Água, fogo, incenso

Dentre os elementos cósmicos usados na Liturgia, talvez seja o fogo o mais rico em significado.

Ele representa para o cristão a ação transformante do Espírito Santo, assim como o amor ou fervor interior. Línguas de fogo pousaram sobre Maria e os Apóstolos no dia de Pentecostes (cf. At 2, 3). Uma lâmpada de azeite se consome diante do Santíssimo, em perene adoração. E velas ardem no altar durante a Missa. No Sábado Santo, na bênção do fogo novo, o mais espiritual dos quatro elementos como que renasce junto com Cristo Ressuscitado, a Luz do Mundo, o Sol que nunca se põe. O Círio Pascal representa nosso Redentor e todas as outras velas recebem dele a sua chama.

A água, por sua vez, em oposição ao fogo, tem propriedades purificadoras e regeneradoras, e por isso o celebrante a usa para limpar as mãos antes de iniciar a Oração Eucarística. Fonte de vida no mundo material, é esse também seu simbolismo no Sacramento do Batismo. Uma pequena quantidade de água é misturada ao vinho, representando a parte humana do sacrifício, o sangue e a linfa que escorreram do lado de Cristo, a união entre Cristo e a Igreja. 11

Ligado ao fogo está, por sua vez, o incenso. A fumaça perfumada que se evola simboliza a oração e é sinal de honra para com as coisas e pessoas sagradas. Ele é usado em momentos-chave: o início da Celebração, o anúncio do Evangelho, o Ofertório e a Elevação da hóstia e do cálice após a Consagração.

Gestos e silêncio

Na Ars celebrandi, têm papel preeminente também os gestos do celebrante, reforçando poderosamente as palavras por ele pronunciadas.

Durante a Oração Eucarística, o sacerdote estende as mãos, palmas para baixo, como um sinal da invocação do Espírito Santo. Ao abrir os braços, ele simboliza Cristo pregado na Cruz. Suas mãos erguidas indicam que sua oração é dirigida a Deus pelo povo. Quando ele junta as mãos e se inclina, denota a humildade de Cristo. Na Liturgia, assim como as palavras têm a força das próprias palavras de Cristo, os gestos são os gestos d’Ele.

O silêncio na Liturgia não é um interlúdio mudo e vazio, mas é conatural com a oração, a contemplação e a abertura para o sobrenatural. Um período de silêncio marca um momento de grandeza e solenidade, conforme demonstrado na narração da Liturgia celestial do Apocalipse: “E quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, fez-se silêncio no Céu por quase meia hora” (Ap 8, 1).

No sagrado contexto da Liturgia, esses aspectos simbólicos ganham em vida e significado. “Uma vez iluminadas as inteligências e aquecidos os corações, os sinais ‘falam’”. 12

Ascensão gradual da alma rumo à união com Deus

Ora, não é só nos ritos e gestos isolados que encontramos a dimensão simbólica da Celebração Eucarística. Ela se revela também na sua própria estrutura, que os unifica num vibrante contexto.

Os passos cadenciados e solenes da procissão de entrada em direção ao Presbitério simbolizam o cortejo da Igreja na terra para a Jerusalém celestial. 13 Mas o desenvolvimento da celebração retrata a ascensão gradual da alma rumo à união com Deus. O rito penitencial corresponde ao estágio purgativo da vida espiritual, durante o qual a alma se purifica dos seus defeitos; a Celebração da Palavra, ao iluminativo; e, finalmente, o estágio da perfeita união, à presença real. 14

“A Liturgia tem uma ligação intrínseca com a beleza”

Pela Liturgia, como vimos, Cristo continua na Igreja, com ela e por ela, sua função sacerdotal. Desse modo, “a beleza de uma Celebração Eucarística não depende essencialmente da beleza da arquitetura, das imagens, dos ornatos, dos cânticos, das sagradas vestes, da coreografia e das cores, mas antes de tudo da capacidade de revelar-se o gesto de amor praticado por Jesus. Por meio dos gestos, das palavras e das orações da Liturgia devemos reproduzir e fazer transparecer os gestos, orações e palavras do Senhor Jesus”. 15

Entretanto, sendo Ele “o mais belo dos filhos dos homens” (Sl 44, 3) e a Beleza em essência enquanto Deus, a Liturgia está inseparavelmente vinculada à beleza, como clarissimamente ensina o Papa Emérito Bento XVI na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis:

“A relação entre mistério acreditado e mistério celebrado manifesta-se, de modo peculiar, no valor teológico e litúrgico da beleza. De fato, a Liturgia, como aliás a revelação cristã, tem uma ligação intrínseca com a beleza: é esplendor da verdade (veritatis splendor). Na Liturgia, brilha o mistério pascal, pelo qual o próprio Cristo nos atrai a Si e chama à comunhão. […]

“A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal. A beleza da Liturgia pertence a este mistério; é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o Céu que desce à Terra. O memorial do sacrifício redentor traz em si mesmo os traços daquela beleza de Jesus testemunhada por Pedro, Tiago e João, quando o Mestre, a caminho de Jerusalém, quis transfigurar-Se diante deles (cf. Mc 9, 2-7). Concluindo, a beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isto nos há de tornar conscientes da atenção que se deve prestar à ação litúrgica para que brilhe segundo a sua própria natureza”. 16

O poder de atração da beleza

A beleza tem uma capacidade única de atrair o espírito humano, muito mais do que as ideias ou as doutrinas. E a Celebração Eucarística, em sua resplandecente conjugação de estímulos visuais, sonoros e olfativos, é um eficaz instrumento para conduzir à beleza suprema de Deus.

Ela cria um terreno fértil para engajar a pessoa inteira, “espírito e coração, inteligência e razão, capacidade criativa e imaginação”. A via da beleza descerra horizontes infinitos que impelem o ser humano a “abrir-se ao Transcendente e ao Mistério, a desejar, como fim último de seu desejo de felicidade e de sua nostalgia de absoluto, essa Beleza original que é o próprio Deus”. 17

A importância da beleza na Liturgia, enquanto possante fator de conduzir as almas à beleza suprema de Deus, pode ser facilmente notada no empenho do Papa Bento XVI em que se tenha o máximo de cuidado na celebração dos atos litúrgicos: “Sem dúvida, a beleza dos ritos nunca será bastante procurada, nem suficientemente cuidada nem assaz elaborada, porque nada é demasiado belo para Deus, que é a Beleza infinita. As nossas liturgias terrestres não poderão ser senão um pálido reflexo da liturgia que se celebra na Jerusalém do Céu, ponto de chegada da nossa peregrinação na Terra. Possam, porém, as nossas celebrações aproximar-se o mais possível dela, permitindo-nos antegozá-la!”. 18

Importância do esplendor e perfeição dos ritos no mundo de hoje

Embora submetidas a alterações quanto à forma ao longo dos séculos, as celebrações litúrgicas, em especial a da Eucaristia, constituem o cerne da experiência do transcendente. Mesmo sem considerar os efeitos sobrenaturais produzidos pelo seu caráter sacramental, a beleza, o simbolismo e a estrutura do culto divino outorgam-lhe um papel fundamental na experiência humana, saciando o anseio da alma pela verdade e pelo bem.

Ora, nesta época de pragmatismo, mecanização e globalização, o esplendor e a perfeição na realização dos ritos litúrgicos adquirem uma importância cada vez maior. Neles o homem contemporâneo encontra como que um oásis de verum, bonum e pulcrum num mundo tão desprovido de beleza. Na Liturgia da Santa Igreja, além das graças necessárias ao progresso da alma na virtude, o espírito humano encontra incomparável alimento para o seu inato desejo do Absoluto, porque no centro da beleza e misticismo atemporais da Liturgia, dando-lhe estrutura e sentido, encontra-se a Beleza Eterna, Divina e Infinita. O próprio Deus.

10 Cf. PASTRO, Cláudio. O Deus da beleza: a educação através da beleza. São Paulo: Paulinas, 2008, p.69.
11 GARRIDO BONAÑO, OSB, Manuel. Curso de Liturgia Romana. Madrid: BAC, 1961, p.326327.
12 JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Mane nobiscum Domine, n.14.
13 Cf. ELLIOT, Peter. Guía práctica de la liturgia. 4.ed. Pamplona: EUNSA, 2004, p.72.
14 Cf. ARBOLEDA MORA, Carlos. Los alcances de la fe en la posmodernidad. In: Revista Lasallista de Investigación. Corporación Universitaria Lasallista – Colombia. v.V. N.2 (jul.dez., 2008); p.140.
15 MARINI, Piero. Liturgia e Bellezza – Nobilis Pulchritudo. Cidade do Vaticano: LEC, 2005, p.79.
16 BENTO XVI. Sacramentum caritatis, n.35.
17 PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A CULTURA. A “Via pulchritudinis”. Documento final da Assembleia Plenária, 2006, II.3.
18 BENTO XVI. Homilia na celebração das vésperas na Catedral de Notre Dame. Paris, 12/9/2008.

Sinal de uma Noite Feliz

[jwplayer mediaid=”2175″]Silvana Gabriela Chacaliaza Panez

Deixemos que os inconfundíveis acordes da música natalina por excelência nos transportem misticamente à noite do nascimento do Divino Rei.

Quantas vezes um perfume, uma imagem, um som, um sabor, uma música ou até mesmo uma palavra nos recordam certa época de nossa vida, lembram algum episódio histórico, ou nos fazem reviver momentos especiais. Assim acontece, já no mês de novembro, quando ruas e lojas começam a se preparar para uma das festas mais importantes do ano: o nascimento do Menino Jesus.

São muitos os sinais que evocam, sob aspectos diferentes, o momento no qual os Céus se abriram para permitir a descida do Redentor, vindo ao mundo por amor aos homens.

A árvore de Natal, belamente enfeitada de bolas coloridas e feéricas luzes, lembra-nos, com seus presentes, o maior dom dado por Deus à humanidade: seu próprio Filho! No presépio representa-se a adoração que os Reis do Oriente renderam ao Menino Jesus, levando-Lhe ouro por ser o Rei dos reis, incenso por ser Deus verdadeiro em sua verdadeira humanidade, e mirra por ser o Redentor, que haveria de comprar com seu sofrimento a salvação dos homens.

Não podemos nos esquecer do menu da Ceia, parte importante da celebração natalina. Pensado com antecedência, ele procura simbolizar os manjares celestiais em torno dos quais se reúnem os bem-aventurados no Céu empíreo, a fim de propiciar uma conversa amena e um convívio agradável.

Mas talvez o que mais fale à alma sejam as músicas natalinas, pervadidas de inocência e transbordantes de afeto para com o Deus Menino nascido em Belém. E, entre todas, expressando por excelência o significado do Natal, está o Stille Nacht.
Conta a tradição haver nascido esta famosa canção do coração de dois homens. Um deles foi o padre Joseph Mohr, a quem podemos imaginar no pequeno povoado austríaco de Obendorf, no ano de 1818, preparando seu sermão para a Missa do Galo. Eis que, enquanto ele se encontrava imerso na leitura das Sagradas Escrituras, deitando toda sua atenção sobre elas, tocou à sua porta uma camponesa pedindo-lhe ir abençoar o bebê recém-nascido de um lenhador.

O sacerdote agasalhou-se e acompanhou a boa mulher. Pelo caminho, permanecia absorto, pensando na homilia que haveria de pregar, mas ao chegar à humilde cabana, o cenário com que se deparou marcou-o profundamente. Banhado por débil luz e aquecido por fraca lareira, um leito simples acolhia a jovem mãe com o recém-nascido doce e serenamente adormecido em seus braços, aguardando ser abençoado.

Quanta paz! Quanta inocência! Quanta presença do sobrenatural havia naquela singela cena!

No retorno, um poema fluiu com extrema facilidade de sua pena descrevendo os sentimentos que embalaram sua alma na pobre choupana. Estava escrito o Stille Nacht!

Na manhã seguinte, o padre Mohr se dirigiu à casa de seu grande amigo, Franz Gruber, professor de música do lugar, e mostrou-lhe as linhas que havia escrito. Gruber se encantou com a poesia e, inspirado por sua natalina beleza, logo compôs uma melodia para ela.

A partir daí, aquela que marcaria a História como a canção de Natal arquetípica foi sendo difundida aos poucos pelo mundo. E não foram as belas vozes dos cantores nem o melodioso som dos instrumentos que a consagraram, mas sua virtude para impregnar de candura natalina os ambientes onde ela é entoada.

Saibamos aproveitar este tempo de Natal, pervadido de bênçãos e inocência, para ver, nas fragilidades de um Deus feito Menino, o Senhor e Criador do Universo. Que nossos sentimentos de ternura e compaixão ao contemplar sua infantil pequenez estejam cumulados de reverência e veneração, junto com o ardente desejo de que todos os homens Lhe entreguem suas vidas, sua vontade e todo o seu ser.

Peçamos também a graça de ser inocentes, a fim de podermos entender a fundo o verdadeiro significado do que aconteceu na gruta de Belém. E deixemos que os acordes do Stille Nacht nos transportem misticamente à noite do nascimento do Divino Rei, para podermos rejubilar de alegria com toda a natureza, porque o Invisível se tornou visível, por sua Divina Humanidade, em uma “noite feliz”!

O taumaturgo de Montreal

Irmã Elizabeth Veronica MacDonald, EP

Uma notícia alvissareira logo correu por toda a vila: “O Irmão André está no bairro, visitando uma mulher enferma!”.

Parando para apertar com firmeza a mão de um rapaz, disse-lhe: “Não te preocupes, as coisas vão se endireitar”. Mais adiante, fitou um ancião e perguntou-lhe: “Tens fé de que São José pode te curar?”. E com voz transbordante de afeto acrescentou: “Coragem! Tem confiança em São José!”.

Por fim, antes de partir, deu a todos uma última recomendação: “Continuem a rezar!”.
Já no carro, o motorista comentou:

— Parece uma cena da vida de Jesus: o povo correndo diante do senhor e implorando favores e curas!

— Talvez… mas aqui Deus certamente está usando um instrumento bastante miserável — respondeu o santo com simplicidade.

“Estou lhes enviando um santo”

Alfredo — era este seu nome de Batismo — nasceu numa família pobre e numerosa, em 9 de agosto de 1845, na aldeia de Saint-Grégoire d’Iberville, próxima de Montreal. De saúde débil, a dor o acompanhou desde pequeno.
Segundo alguns biógrafos, sua assinalada devoção a São José talvez tenha origem no fato de seu pai ser carpinteiro. Mas, em qualquer caso, a vida de Alfredo vai estar marcada, já desde a infância, por um relacionamento todo especial entre o Patriarca da Igreja e aquele piedoso menino, que haveria de construir a maior igreja do mundo dedicada a ele.

Antes, porém, teve de percorrer um longo e sinuoso caminho. Tentou exercer várias profissões, sem êxito, devido à sua fraca saúde. Aos vinte anos, partiu para os Estados Unidos, buscando trabalho nas fábricas têxteis de Connecticut, mas voltou algum tempo depois, quando ficou evidente que não tinha forças para esses serviços.

Foi o pároco da sua aldeia natal quem, percebendo a virtude, retidão e constância desse jovem, identificou nele uma autêntica vocação religiosa e o encaminhou ao colégio que a Congregação da Santa Cruz — fundada, havia pouco, na França pelo Beato Basile Moreau — já possuía em Montreal. “Estou lhes enviando um santo”, declarou o pároco, na carta em que recomendava aquele candidato simples e analfabeto.

O melhor “cartão de visitas” da Congregação

Alfredo não defraudou aquelas expectativas. Logo aprendeu a ler e, com seu comportamento exemplar, ajudou a elevar o padrão do noviciado. A meditação sobre os sofrimentos de Cristo sempre fora uma das colunas da sua espiritualidade. “Se nos lembrássemos que o pecado crucifica novamente Nosso Senhor, nossas orações seriam mais adequadas” 1, afirmava. Entretanto, procurava manter sem cessar seus companheiros animados, repetindo-lhes: “Tentem não ficar tristes! Faz bem sorrir um pouco…”.

Ao se aproximar o fim do noviciado, Alfredo Bessette receava ser-lhe negada a autorização para proferir os votos religiosos, por causa de sua saúde débil. Mas após pedir a intercessão do Bispo, Dom Ignace Bourget, acabou por fazê-los em 22 de agosto de 1872, trocando o nome de Batismo pelo de Irmão André.

O superior o incumbiu da portaria do colégio e ele ali desempenhou com toda perfeição sua tarefa: mantinha o ambiente em ordem exímia, servia de carteiro e executava vários outros serviços. Falando inglês e francês, revelou especial talento para receber as pessoas e fazê-las sentir-se à vontade. Acabou por tornar-se o melhor “cartão de visitas” da Congregação.

No fim da vida, costumava dizer espirituosamente: “Quando ingressei nesta comunidade, os superiores me mostraram a porta e lá fiquei durante quarenta anos”. 2

Curas numerosas e bem documentadas

Cerca de cinco anos após sua entrada em religião, começou a manifestar-se nele o dom da cura. Certo dia, aproximou-se do leito no qual jazia um estudante com febre alta e mandou-o ir brincar, afirmando estar ele em perfeita saúde. Para espanto do médico de plantão, o menino saiu sadio da cama.

Noutra ocasião, chegou à portaria o pai de um aluno, com fisionomia preocupada, e o bom irmão lhe perguntou qual era seu problema. O pobre homem explicou que sua esposa ficara paralítica. “Talvez ela não esteja tão doente como parece”, disse-lhe o santo. Naquele momento, do outro lado da cidade, a mulher levantou-se e começou a caminhar regularmente.

Irmão André aproveitava essas curas, sempre realizadas de forma discreta, com aparência de normalidade, para fazer um apostolado contínuo: recomendava a oração perseverante, sugeria novenas, “receitava” a aplicação do óleo de uma lamparina que ardia ante a imagem de São José, ou aconselhava a levar consigo uma medalhinha deste, pois, dizia, “tudo isso são atos de amor e fé, de confiança e humildade”.

Fazia também questão de esclarecer a verdadeira causa das curas a ele atribuídas, afirmando ser o bom Deus quem faz os milagres e São José quem os obtém. “Eu sou apenas o cachorrinho de São José”, dizia com humildade. 3

Certo dia, enquanto lavava o corredor central do colégio, apresentou-se diante dele, apoiada em duas pessoas, uma mulher atacada de reumatismo, incapaz de caminhar sozinha. Irmão André, olhando-a com perplexidade, disse-lhe:

— Creio que a senhora poderia andar por conta própria. Por que não experimenta ir sozinha até à capela?

Ela assim o fez, e regressou para casa andando sem dificuldade e chorando de gratidão.

Quando a afluência de doentes começou a perturbar a rotina do colégio, Irmão André transferiu suas atividades apostólicas para uma estação de ônibus, situada nas proximidades. Ao saber disso, o Arcebispo perguntou aos superiores que faria ele se o obrigassem a parar de fazer milagres. Ao saber que ele obedeceria cegamente, replicou: “Então, deixem-no. Se esta obra é de Deus, florescerá; se não, vai desmoronar”. 4

As curas de almas e corpos continuaram às torrentes. Mais de quatro mil páginas documentando-as foram recolhidas durante o processo de beatificação.

Um dos casos mais impressionantes é o de um jovem, vítima de terrível acidente industrial. Com o rosto queimado, em risco de ficar cego, correu à procura do Irmão André, mas este estava atendendo um infeliz canceroso, e havia muitos outros à espera. Sem sequer tê-lo visto chegar, o religioso apareceu e perguntou-lhe:

— Quem disse que perderás as vistas? Tens confiança na intercessão de São José?

Diante da resposta afirmativa, recomendou-lhe:

— Vai para a igreja, assiste à Missa e comunga em honra de São José. Continua com os teus remédios, mas adiciona a eles uma gota do óleo da lamparina do glorioso Patriarca, rezando esta jaculatória: “São José, rogai por nós!”. Tem confiança, tudo correrá bem!

O acidentado fez com exatidão o que lhe foi recomendado e, no dia seguinte, o tecido cauterizado de seu rosto caiu como “folhas de papel celofane”. Inteiramente restabelecido, voltou em sinal de reconhecimento.

— Agradece a São José e não cesses de rezar! — limitou-se a dizer o santo taumaturgo.

A dona de uma lanchonete próxima, que alguns dias antes havia visto o moço com o rosto desfigurado, não podia acreditar se tratar agora do mesmo homem. E começou a apregoar para todos o impressionante milagre de que era testemunha.

Uma igreja para São José

Um santo anseio abrasava, porém, a alma do humilde porteiro. Ansiava ele construir próximo ao colégio, no Mont-Royal, uma igreja em honra de seu protetor. Mas o objetivo era muito ousado…

Certo dia, um religioso da sua comunidade contou-lhe que a imagem de São José da sua cela parecia girar sozinha, em direção a esse monte. Exultante, Irmão André reconheceu nesse fato o esperado sinal da Providência para dar início à realização de seu anelo, e juncou de medalhinhas o lugar almejado.

Em 1896, a Congregação da Santa Cruz adquiriu aquele terreno, com a finalidade de evitar uma má vizinhança para o colégio. Irmão André obteve autorização para colocar uma imagem de São José na gruta ali existente e as peregrinações não tardaram a começar. Milhares e milhares de pessoas a visitavam.

Após economizar duzentos dólares, a partir dos cortes de cabelo dos alunos do colégio, a cinco centavos cada um, foi possível levantar uma pequena capela. Começou-se também a obter esmolas no “pratinho de ofertas” posto aos pés do Santo, e até nos Estados Unidos eram obtidas doações.

Em 1904, foi erigido um pequeno Oratório de São José, constituído de uma capela um pouco maior e um escritório, no qual passou a residir o Irmão André. Treze anos depois, o edifício foi ampliado, de modo a comportar mil pessoas sentadas, mas este também logo se tornou pequeno para a grande afluência de fiéis.

A construção da basílica atual — a maior igreja do Canadá — começou em 1924. Oito anos depois foi preciso detê-la por falta de meios, em consequência da grande crise econômica pela qual atravessava o país. Sem se afligir, Irmão André colocou uma imagem de São José no interior do prédio inacabado, dizendo:

— Se ele deseja um teto sobre sua cabeça, o teto virá. Dois meses depois, reiniciavam-se as obras…

Cabe notar que, embora considerasse um dever levar adiante essa construção, Irmão André dedicava-lhe apenas o tempo permitido pela obediência, sem deixar de cumprir suas funções.

Ministério de amorosa oblação

O dia a dia daquele humilde porteiro estava todo tomado por um ministério de amorosa oblação. Começava a jornada acolitando duas Missas, e às oito horas da manhã abria a porta aos visitantes. No pequeno escritório, que também lhe servia de cela, recebia cotidianamente entre 200 e 400 pessoas, podendo chegar a 700.

Os que iam ao encontro do Irmão André procurando sensacionalismo saíam decepcionados. Seus conselhos eram simples e sensatos, visando a cura das almas mais que o alívio dos males corporais. Algumas vezes limitava-se a ajudar as pessoas a aceitarem a vontade divina. “Deus terá uma eternidade para te consolar de teus sofrimentos aqui”, 5 lhes dizia.

Encorajava também a Confissão frequente e a Comunhão diária, garantindo que Jesus nada recusa a quem O hospeda em seu coração. E comentava: “Coisa curiosa: recebo numerosos pedidos de cura, mas raramente alguém pede a virtude da humildade ou o espírito de fé”. 6

Para com as pessoas afastadas da prática religiosa por fraqueza ou ignorância, demonstrava ilimitada compaixão. Contava-lhes de modo comovedor a parábola do Filho Pródigo e concluía: “Comme le bon Dieu est bon — Como o bom Deus é bom!”. Mas cortava pela raiz as atitudes de revolta e má fé: “Será que Deus te deve alguma coisa? Se pensas assim, podes fazer teus próprios arranjos com Ele”. 7

O preço com o qual ele comprava o alívio e a conversão dessas almas era bem alto. No fim da jornada, mesmo consumido pela indisposição e cansaço, ainda fazia uma vagarosa Via Sacra na capela e, em seguida, ajoelhado durante horas rezava com os braços estendidos em forma de cruz. Sua cama ficava muitas vezes intacta durante a noite toda. E quando um irmão de hábito lhe implorou que dormisse, oferecendo seu sono como uma oração, ele respondeu gravemente: “Se soubesses o estado daqueles que pedem minhas orações, não me darias tal sugestão”.8

Primeiros frutos póstumos

Os fiéis amavam aquele bom ancião de cabelos brancos e pediam-lhe para que não os deixasse. Mas, completados os 92 anos, a morte se aproximava e ele os consolava amavelmente, afirmando que se alguém pode fazer o bem na Terra, mais ainda poderá fazê-lo do Céu.

No dia 6 de janeiro de 1937, a triste notícia era dada com destaque pelos mais importantes jornais de Montreal: “Morreu Irmão André”. Enfrentando a neve e o gelo, uma verdadeira multidão começou a se deslocar em direção a Mont-Royal para despedir-se de seu taumaturgo. Chegavam de avião, de trem, de todos os meios de transporte. O Oratório de São José transbordava de uma multidão tomada de devoção e piedade, enquanto penitentes enchiam os confessionários. Calcula-se que um milhão foram as pessoas que subiram o serpenteante caminho do santuário, para se despedir daquele cuja única ambição fora servir a Deus na completa despretensão da vida religiosa.

Eram os primeiros frutos póstumos desse simples irmão leigo que tornou-se o primeiro santo de sua Congregação, bem como o primeiro varão nascido no Canadá a ser elevado às honras dos altares.

Irmão André não chegou a ver finalizado o grande Santuário, que foi concluído apenas em fins da década de 60, como também não viu a realização de mais um de seus desejos: colocar uma grande Via Sacra nos aforas da igreja, para fomentar a devoção à Paixão do Redentor.

Mas é impossível não sentir sua presença em cada uma das dependências desse impressionante templo, que atrai anualmente três milhões de peregrinos, dando testemunho do poder de intercessão do Patrono da Igreja Universal. Logo ao chegar, uma grande imagem de São José, esculpida em pedra, recebe os visitantes na escadaria central. Em sua base, uma inscrição de três palavras dá as boas-vindas, evocando a sabedoria simples e piedosa daquele irmãozinho que jaz na cripta: “Ite ad Joseph — Ide a José”.

1FERGUSON, John. The Place of Suffering. London: James Clarke and Co., 1972, p.115.
2BALL, Ann. Faces of Holiness. Huntington (IN): Our Sunday Visitor, 2001, p.54.
3KYDD, Ronald. Healing Through the Centuries. Peabody (MA): Hendrickson, 1998, p.85.
4BALL, op. cit., p.57.
5TREECE, Patricia. Nothing Short of a Miracle. New York: Doubleday, 1988, p.74.
6O’MALLEY, Vincent. Saints of North America. Huntington (IN): Our Sunday Visitor, 2004, p.26.
7KNOWLES, Leo. Modern Heroes of the Church. Huntington (IN): Our Sunday Visitor, 2003, p.82.
8TREECE, op. cit., p.75.