Viveu feliz e morreu contente

Ir. Clotilde Thaliane Neuburger, EP

“Exultai no Senhor, ó justos” (Sl 32, 1); “Felizes aqueles cuja vida é pura, e seguem a Lei do Senhor” (Sl 118, 1). Estes e muitos outros ensinamentos dos Salmos poderiam ser citados, para mostrar o quanto a virtude e a verdadeira alegria andam sempre de mãos dadas.

O íntimo relacionamento entre ambas aparece especialmente visível no Santo cuja vida contemplaremos aqui: São Crispim de Viterbo. Com propriedade realçou São João Paulo II em sua homilia, ao canonizar este irmão leigo capuchinho do século XVII: “O primeiro aspecto de santidade que desejo fazer notar em São Crispim é o da alegria”.1

Consagrado desde criança a sua “Mãe e Senhora”

Ele veio ao mundo a 13 de novembro de 1668, em Viterbo, cidade então pertencente aos Estados Pontifícios, e dois dias depois foi batizado na Igreja de São João Batista, recebendo o nome do avô: Pedro. Seus pais, Ubaldo e Marzia Fioretti, eram de condição humilde, porém muito respeitados por sua conduta digna e piedosa.

Sendo Pedro ainda muito criança, o pai veio falecer, mas não sem antes confiar ao seu irmão Francisco a formação do pequeno. Marzia, por seu lado, empenhava-se em dar-lhe esmerada educação religiosa e moral.

Quando contava cinco anos de idade, ela o levou em peregrinação ao Santuário de Santa Maria della Quercia, a fim de consagrá-lo a Nossa Senhora. Lá chegando, ambos se ajoelharam diante da bela imagem e a mãe disse ao filho: “Estás vendo? Esta é a tua Mãe, e eu agora te entrego a Ela. Procura amá-La sempre de todo o coração e honrá-La como tua Senhora”.2 Tais palavras calaram tão fundo na alma do menino que, até o fim da vida, jamais deixou de dirigir-se à Virgem Santíssima sem chamá-la de “Mãe e Senhora”.

Melhor um santo magro, que um pecador forte

Desde a mais terna infância, comenta um de seus biógrafos, Pedro manifestou ter um temperamento extremamente dócil e agradável, acompanhado por uma alegria contagiante, qualidades estas que “demonstravam as mais vantajosas predisposições para avançar nas vias da virtude e pressagiavam sua futura santidade”.3

Com um pouco mais de idade, adquiriu o costume de fazer sacrifícios e penitências. Jejuava a pão e água nos sábados e nas vigílias das festas de Nossa Senhora — e assim continuou a fazer quando adulto —, mesmo se estava doente. Vendo a criança sempre franzina e com a saúde debilitada, o tio Francisco dizia com rude franqueza a Marzia que ela servia “para criar frangos, e não filhos, pois Pedro não crescia porque não comia”.4 A boa mãe, entretanto, nada contestava, pois conhecia bem as causas da fraqueza do menino…

Preocupado, o tio passou a vigiar pessoalmente a alimentação de Pedro. E logo descobriu que o problema estava no espírito de sacrifício do jovenzinho, e não na falta de alimentos. Desculpou-se, então, junto à cunhada, dizendo-lhe: “Deixa-o fazer o que quer, afinal é melhor ter em casa um magro santo, que um pecador forte”.5

Aos dez anos, já ajudava como coroinha nas Santas Missas e demais tarefas de sacristão. Nessa época foi estudar gramática com os padres jesuítas e trabalhava como sapateiro junto com seu tio Francisco, ofício que exerceu até os 25 anos. Com o dinheiro obtido costumava comprar no mercado da cidade as melhores e mais belas flores para depositá-las aos pés de sua “Mãe e Senhora”.

“Por que choras, minha mãe?”

Em 1693 uma terrível seca assolou grande parte da Itália. Os habitantes de Viterbo fizeram uma procissão penitencial para implorar a Deus misericórdia e o jovem sapateiro fez questão dela participar. No trajeto, tomou contato com alguns frades de hábito marrom, que caminhavam e rezavam com modéstia e compenetração angélica. Eram filhos de São Francisco de Assis, e seu virtuoso aspecto despertou na alma do rapaz o desejo de seguir a vida religiosa.

Seguro de haver encontrado sua vocação, pediu ao padre provincial para ser aceito numa das comunidades da ordem. Depois de examiná-lo bem, o superior entregou-lhe uma carta de admissão e encaminhou-o ao noviciado de Palanzana. Pedro a mostrava aos conhecidos e familiares, dizendo: “Adeus pátria, adeus parentes, adeus amigos, adeus a todos. Agora já sou filho do Seráfico Patriarca e meu lugar é entre os irmãos leigos capuchinhos”.6 Tal era sua alegria que ninguém ousava dissuadi-lo de ser religioso. Sem embargo, sugeriam-lhe, em vão, ingressar em outra ordem menos austera, na qual pudesse seguir a via sacerdotal.

Vendo sua mãe chorar, angustiada por sua partida, disse-lhe com muito respeito: “Por que choras, minha mãe? Não me consagraste a Deus e à Santíssima Virgem quando eu tinha apenas cinco anos? Como agora queres reter contigo aquilo que doastes? A doação foi feita de livre e espontânea vontade, e com minha anuência. Portanto, é preciso cumpri-la e resignar-se”.7

Um jovem franzino na austera vida capuchinha

Cheio de alegria juntou seus pertences e partiu para o noviciado, em companhia de outros quatro jovens aparentados com ele. No caminho, o demônio tentou atrapalhá-lo de diversos modos. Em determinado ponto do percurso, surgiu um feroz mastim avançando certeiro em sua direção. Sem vacilar, ele recorreu ao auxílio da Santíssima Virgem e o animal estancou como impedido por uma mão potente, e embrenhou-se numa vinha, desaparecendo dos seus olhares.

No dia 4 de julho daquele ano de 1693, chegaram ao convento de Palanzana. O mestre de noviços, vendo a mirrada compleição física de Pedro, concluiu que não estava em condições de suportar as austeridades da regra capuchinha, e decidiu rejeitá-lo. Pedro lançou-se a seus pés e suplicou que o recebesse. Afinal, depois de passar por diversas provas, o jovem conseguiu ser admitido.

Na festa de Santa Maria Madalena, 22 de julho, revestiu-se do hábito de São Francisco e, conforme o costume das ordens religiosas, adotou um novo nome: frei Crispim, em homenagem ao mártir São Crispim, padroeiro dos sapateiros.

Sua primeira ocupação foi cuidar da horta do convento, junto com outros irmãos leigos. Aceitando a incumbência com prontidão, trabalhava durante quatro ou cinco horas debaixo do Sol, com maior empenho e força que os demais, apesar de sua frágil compleição física. Para todos era edificante vê-lo executar suas tarefas, por mais árduas que fossem, não só sem reclamar, senão até com alegria.

“Frei Andorinha do Senhor”

Vendo-o mais maduro na vocação, o mestre de noviços deu-lhe novo encargo: acompanhar o irmão esmoler. No exercício da função, frei Crispim deu mostras de virtudes incomuns e de notável espírito evangelizador.

Antes de sair do convento, cantava o hino Ave Maris Stella e partia de rosário em punho. No caminho, catequizava a quem encontrava, obtendo de muitas pessoas uma verdadeira mudança de vida.

Em pouco tempo, o jovem religioso ficou conhecido pelas redondezas. Muitas pessoas acorriam a ele para entregar suas doações, pedindo em troca outra “esmola” ainda mais valiosa: a de suas palavras e orações. A cada um ele respondia com uma inocência ímpar; por vezes, dizia ao interessado para voltar daí a pouco, pois precisava antes conversar com sua “Mãe e Senhora”.

A confiança por ele despertada nos seus interlocutores era tal, que muitos saíam de sua presença com a certeza de já terem alcançado a graça almejada. Tanto que a piedade dos que eram beneficiados levava-os a cortarem pedaços de seu manto para guardá-los como relíquia.

Certa vez um irmão professo, de grande bondade e simplicidade, notou num recanto do convento um ninho de andorinhas e observou, admirado, com quanta alegria o casal se esforçava para alimentar seus filhotes. Associando aquela imagem à alegria com a qual frei Crispim se fatigava para suprir as necessidades dos seus irmãos de hábito, apelidou-o de “frei Andorinha do Senhor”.8

Provações e trabalhos durante o noviciado

Em meio às suas obrigações, nosso Santo não abandonava as penitências corporais e as mortificações, nas quais encontrava força sobrenatural para superar as insuficiências da humana natureza. Ora, como sói acontecer, o demônio aproveitou-se disso para tentá-lo a perder o ânimo.

Instilou-lhe o inimigo infernal pensamentos de que ele se penitenciava por amor-próprio e para não ser expulso da ordem e, portanto, não era o amor a Deus que o movia, mas o egoísmo. Tão grandes foram as provas que, apesar de nunca cair em má tristeza, sua fisionomia mudou: refletia a preocupação por pensar estar desagradando a Nosso Senhor e sua Santíssima Mãe.

Percebendo a trama diabólica, o mestre de noviços e seu confessor deram-lhe ordem formal, em nome da santa obediência, de recusar imediatamente tais escrúpulos provenientes do demônio. Frei Crispim obedeceu e logo recuperou a paz de alma, recobrando a serenidade de seu semblante.

Todos os noviços o tinham como modelo de perfeição religiosa e de caridade fraterna. A tal ponto que o próprio mestre de noviços dizia a seus subalternos: “Fazei como frei Crispim”.9

Em uma ocasião, um frade foi acometido de tuberculose. Temendo o contágio dos demais irmãos, decidiram os superiores mantê-lo separado da comunidade. Necessário era designar-lhe um bom enfermeiro. Conhecedores da caridade e presteza de frei Crispim, confiaram-lhe tal responsabilidade. O jovem dedicou-se com tanto amor e cuidado ao irmão doente, que arrancou deste a seguinte exclamação: “Este frei Crispim não é um noviço, mas sim um Anjo!”.10

Desempenhando os mais humildes ofícios

Tendo feito sua profissão perpétua, frei Crispim foi designado como cozinheiro do convento de Tolfa e para lá se dirigiu. Com sua chegada, mudou radicalmente o ambiente da cozinha. Erigiu ali um pequeno altar com uma imagem da Santíssima Virgem, à qual dirigia contínuas orações, e aplicou às coisas práticas a máxima de São Bernardo: a pobreza nunca deve excluir a limpeza. Todos os que entravam naquelas dependências ficavam edificados com a ordem e boa disposição que reinavam numa parte tão prosaica do convento.

Vários foram os outros conventos pelos quais o Santo passou nos seus cinquenta anos de vida religiosa: Monterotondo, Roma, Albano e Orvieto. Em cada um desempenhou os ofícios mais simples, com humildade e despretensão singulares. Qualquer que fosse a função recebida, a alegria e o espírito sobrenatural nunca o abandonavam. E não poucos foram os milagres operados por ele ainda em vida, como a cura de diversos doentes durante uma epidemia que grassou pela Itália, apenas tocando-os ou traçando sobre eles o sinal da Cruz com sua medalha de Nossa Senhora.

Prelados, nobres e sábios iam à sua procura para suplicar-lhe a cura da peste ou tão só para sentir o bom odor da santidade exalado por sua pessoa. O Cardeal de Tremoglie, Ministro da França, foi curado de grave doença ao comer um funghi especial que o Santo lhe dera, depois de apresentá-lo a Maria Santíssima com este fim. Até o próprio Papa Clemente XI deleitava-se em conversar com ele e o ia buscar em Albano, quando ali residia.

A paz e alegria da boa consciência

Em 1750, mesmo estando com a saúde muito debilitada e já acamado, sua habitual alegria não o abandonou. Havia regressado ao convento de Roma e não querendo atrapalhar a celebração da memória de São Félix de Cantalice, um capuchinho de sua devoção canonizado havia poucas décadas, frei Crispim declarou ao enfermeiro que só morreria depois dos dois dias dedicados à sua memória na época: 17 e 18 de maio. E, efetivamente, assim aconteceu: o Senhor o levou no dia 19, aos 82 anos.

Uma verdadeira multidão acorreu aos seus funerais. Todos imploravam graças ou procuravam obter alguma relíquia. Os milagres não tardaram em multiplicar-se. No coração de muitos de seus devotos, decerto, ressoava uma frase que ele repetia, quando lhe pediam para definir a santidade: “Quem ama a Deus com pureza de coração, vive feliz e morre contente”.11

Esta frase bem resume toda a sua vida!

De fato, só aquele que cumpre a própria missão é capaz de ter genuína alegria, pois está em paz com Deus. Leva na alma, ensina Mons. João Scognamiglio Clá Dias, “a paz verdadeira, a da boa consciência de quem pratica a virtude e dá as costas ao pecado”.12

1 SÃO JOÃO PAULO II. Homilia na canonização de São Crispim de Viterbo, 20/6/1982.

2 NIZZA, Bonifazio da. Vita del B. Crispino da Viterbo. Roma: Salomoni, 1806, p.2.

3 Idem, p.1.

4 Idem, p.7.

5 Idem, ibidem.

6 Idem, p.9.

7 Idem, ibidem.

8 BASSANO, Alessandro da. Vita del Servo di Dio F. Crispino da Viterbo: religioso laico professo dell’Ordine de’Frati Minori di S. Francesco Cappuccini. Venezia: Giovanni Tevernin, 1752, p.19.

9 CORDOVANI, Rinaldo. Crispino da Viterbo. Cenni biografici. In: Biblioteca Società. Viterbo. Vol. XXVII. Fasc. 4 (2008); p.5.

10 BASSANO, op. cit., p.21.

11 LANGA, OSA, Pedro. San Crispín de Viterbo. In: ECHEVERRÍA, Lamberto de; LLORCA, SJ, Bernardino; REPETTO BETES, José Luis (Org.). Año Cristiano. Madrid: BAC, 2004, v.V, p.428.

12 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. A santa alegria dos humildes. In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2013, v.II, p.188-189.

Revista Arautos do Evangelho – Maio 2016

 

O primeiro apóstolo dos últimos tempos (cont)

Continuação do post anterior

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Em 1693 dirigiu-se a Paris, a fim de preparar-se para o sacerdócio. Deixava para trás a terra natal e a família, e quis percorrer a pé os mais de 300 km que o separavam da capital francesa. Este será invariavelmente seu modo de viajar, seja em peregrinação, seja em missão.

Já nesse remoto século XVII, Paris exercia sobre seus visitantes fascinante atração. Ao entrar na cidade, o primeiro sacrifício feito por Luís foi o da mortificação da curiosidade: estabeleceu um pacto com seus olhos, negando-lhes o lícito prazer de contemplar as incomparáveis obras de arte parisienses. Assim, quando partiu, dez anos depois, nada havia visto que satisfizesse seus sentidos.

Começou os estudos no seminário do padre Claude de la Barmondière, destinado a receber jovens pouco afortunados. Com a morte deste religioso, Montfort se transferiu para o Colégio Montaigu, dirigido pelo padre Boucher. A alimentação ali era muito deficiente e suas penitências tão austeras que lhe abalaram a saúde e o levaram ao hospital. Todos acreditavam que morreria, tão grave era seu estado, mas ele nunca duvidou da cura, pois sentia não haver chegado sua hora. E, de fato, logo se restabeleceu.

Quis a Divina Providência obter-lhe os meios para terminar os estudos no Pequeno Seminário de Saint-Sulpice. O diretor daquela instituição, conhecedor da fama de santidade do seminarista, “encarou como uma grande graça de Deus a entrada deste jovem eclesiástico na sua casa. Para prestar a Deus ações de graças, mandou rezar o Te Deum”.9 Entretanto, tratava-o com muito rigor, para pôr à prova suas virtudes; começou então para nosso Santo uma via de humilhações, que se prolongou ao longo de toda a sua vida.

Por fim, sacerdote!

Executava com a maior perfeição possível as funções que lhe eram designadas, quer nos serviços mais humildes ou nos estudos, quer na ornamentação da igreja do seminário ou como cerimoniário litúrgico, no serviço do altar.

Suas primeiras missões remontam a esta época. Algumas eram feitas internamente, para aumentar a devoção de seus confrades; outras consistiam em aulas de catecismo ou pregações, para pessoas de fora do seminário. “Possuía um raro talento para tocar os corações”: às crianças falava de Deus, da bondade de Maria, dos Sacramentos que precisavam receber; aos adultos pedia que santificassem seu labor com as mentes postas no Céu.

Esforçava-se por comunicar a prática da escravidão de amor a Nossa Senhora a seus condiscípulos e estabeleceu no seminário uma associação dos escravos de Maria. Todavia, não faltaram opositores que o taxaram de exagerado. Aconselhado pelo padre Louis Tronson, superior de Saint-Sulpice, passou a designar esses devotos como “escravos de Jesus em Maria”,11 e vai ser esta expressão que mais tarde ficará consignada no seu Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem.

“À medida que a aurora do sacerdócio despontava no horizonte, Luís Maria sentia mais do que nunca a necessidade de separar-se da Terra a fim de se recolher completamente em Deus”.12 Foi ordenado em 5 de junho de 1700, dia de Pentecostes, e quis celebrar sua primeira Missa na capela de Maria Santíssima, situada atrás do coro da Igreja de Saint-Sulpice, tantas vezes ornada por ele durante os anos passados no seminário. Blain, seu amigo e biógrafo, resumiu em quatro palavras suas impressões sobre aquele espetáculo sobrenatural: era “um anjo no altar”.

De Nantes a Poitiers

O espírito sacerdotal do padre Luís Maria sentia insaciável sede de almas e as missões em terras distantes o atraíam sobremaneira. Perguntava-se: “Que fazemos nós aqui […] enquanto há tantas almas que perecem no Japão e na Índia, por falta de pregadores e catequistas?”.

No entanto, tinha Deus outros planos para seu missionário naquele momento. Designado para exercer o ministério na comunidade de eclesiásticos Saint-Clément, em Nantes, na qual se pregavam retiros anuais e conferências dominicais para o clero da região, dirigiu-se para onde o mandava a obediência. Seu coração, porém, se dividia entre o desejo da vida oculta e recolhida e o apelo às missões populares, que tanto o atraíam.

Uma feliz experiência missionária em Grandchamps, nos arredores de Nantes, foi decisiva para tornar patentes seus dotes como evangelizador. Algum tempo depois, o Bispo de Poitiers o chamou para trabalhar no hospital desta cidade, pois uma curta permanência sua anterior por lá deixara tal rastro sobrenatural, que os pobres internos o solicitavam para capelão. Foi também nesta cidade que conheceu Catherine Brunet e Maria Luísa Trichet, com quem fundaria mais tarde, em Saint-Laurent-sur-Sèvre, as Filhas da Sabedoria.

Bênção papal: missionário apostólico

A ação missionária de São Luís Grignion acabou por despertar ciúmes, intrigas e até perseguições por parte dos que o deveriam defender, obrigando-o a regressar a Paris. Iniciava-se, assim, um longo caminho de dor que haveria de continuar nas subsequentes missões por ele empreendidas. A autenticidade de suas palavras e de seu exemplo despertavam tantas incompreensões e calúnias que o missionário decidiu peregrinar a Roma, a pé, a fim de procurar junto ao Papa uma luz que desse o rumo de sua vida. “Tanta dificuldade em fazer o bem em França e tanta oposição de todos os lados”15 o levaram a pensar se não seria mesmo o caso de exercer seu ministério num outro país.

Recebido com extrema bondade por Clemente XI, este o encorajou a continuar exercendo seu trabalho missionário na própria França. E para “lhe conferir mais autoridade, deu ao padre Montfort o título de Missionário apostólico”. 16 A pedido do Santo, concedeu o Pontífice indulgência plenária a todos os que osculassem seu Crucifixo de marfim, na hora da morte, “pronunciando os nomes de Jesus e Maria com contrição dos seus pecados”.

Fortalecido pela bênção papal e com o Crucifixo afixado no alto do cajado que o acompanhava nas missões, Grignion voltou às terras gaulesas e, impertérrito, sem nada temer das perseguições ou contrariedades, continuou semeando por toda parte o amor à Sabedoria Eterna e a Nossa Senhora, e a excelência do Santo Rosário. Converteu populações inteiras, mudou costumes licenciosos no campo, nas cidades e aldeias, levantou Calvários, restaurou capelas e combateu o espírito jansenista, tão disseminado na época.

No entanto, foi pouco compreendido por muitos eclesiásticos seus contemporâneos e viu desencadear-se sobre si uma onda de interdições. Prosseguia sua missão, sem desanimar, sendo acolhido pelos Bispos das Dioceses de Luçon e La Rochelle, na Vandeia, região que reagirá, no fim daquele século, à impiedade difundida pela Revolução Francesa, sem dúvida como fruto de sua semeadura.

Olhar posto no futuro…

Seria um erro, contudo, considerar São Luís Grignion apenas como um excelente missionário na França do século XVIII. Com o olhar posto no futuro, sua fogosa alma tinha por meta estender o Reino de Cristo, por meio de Maria, e para isto servia-se de uma forma de evangelização que hoje não poderia ser mais atual: “ir de paróquia em paróquia, catequizar os pequeninos, converter os pecadores, pregar o amor a Jesus, a devoção à Santíssima Virgem e reclamar, em voz alta, uma Companhia de missionários a fim de abalar o mundo através do seu apostolado”.

Num élan profético, previu ele a vinda de missionários que, por seu inteiro abandono nas mãos da Virgem Maria, satisfariam os mais íntimos anseios do Coração de seu Divino Filho: “Deus quer que sua Santíssima Mãe seja agora mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi”.19 Não obstante, se perguntava: “Quem serão estes servidores, escravos e filhos de Maria?”.20 Serão eles, afirmava, “os verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, aos quais o Senhor das virtudes dará a palavra e a força para operar maravilhas”. Antevia que seriam inteiramente abrasados pelo fogo do amor divino: “sacerdotes livres de vossa liberdade, desapegados de tudo, sem pai, sem mãe, sem irmãos, sem irmãs, sem parentes segundo a carne, sem amigos segundo o mundo, sem bens, sem obstáculos, sem cuidados, e até mesmo sem vontade própria”.

São Luís Maria Grignion de Montfort não foi senão o precursor desses apóstolos dos últimos tempos. Modelo vivo dos ardorosos missionários que prognosticava, manteve a certeza inabalável de que, quando se conhecesse e se praticasse tudo quanto ele ensinava, chegariam indefectivelmente os tempos que previa: “Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariæ”23 — Para vir o Reino de Cristo, venha o Reino de Maria. Reino este que, em germe, já habitava em sua alma, tornando-o o primeiro apóstolo dos últimos tempos.

9 BLAIN, op. cit., p.77.

10 GRANDET, Joseph. La vie de Messire Louis-Marie Grignion de Montfort, prêtre, missionnaire apostolique, composée par un prêtre du clergé, apud LE CROM, op. cit., p.93.

11 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, n.244. In: OEuvres Complètes. Paris: Du Seuil, 1966, p.651.

12 LE CROM, op. cit., p.97.

13 BLAIN, op. cit., p.99.

14 LE CROM, op. cit., p.102.

15 BLAIN, op. cit., p.174.

16 LE CROM, op. cit., p.184.

17 Idem, ibidem.

18 Idem, p.107.

19 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, op. cit, n.55, p.520.

20 Idem, n.56, p.520.

21 Idem, n.58, p.521.

22 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Prière Embrasée, n.7. In: OEuvres Complètes, op. cit., p.678.

23 SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT, Traité de la vraie dévotion à la Sainte Vierge, op. cit, n.217, p.635.

O primeiro apóstolo dos últimos tempos

Ir. Juliane Vasconcelos Almeida Campos, EP

Corria o ano de 1716. A missão em Saint-Laurent-sur-Sèvre — que seria a última! — começara em princípios de abril. Consumido pelo trabalho, o dedicado pregador foi acometido por uma pleurisia aguda, mas não cancelou o sermão prometido para a tarde da visita do Bispo de La Rochelle, Dom Étienne de Champflour, em 22 de abril, no qual falou sobre a doçura de Jesus. Contudo, teve de ser levado do púlpito quase agonizante…

Passados alguns dias, pressentindo a morte que já previra para aquele ano, ele pediu que, quando o pusessem no ataúde, lhe fossem mantidas no pescoço, nos braços e nos pés as cadeias que usava como sinal de escravidão de amor à Santíssima Virgem. Em 27 de abril, o enfermo ditou seu testamento e legou sua obra missionária ao padre René Mulot. Continue lendo