Inicia-se uma nova era

Ir Mariana de Oliveira, EP

Com a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo a este mundo, “ iniciou-se um novo regime na história do povo eleito: a era da justiça inclemente estava terminada e começava a era da misericórdia. E esta, tão mais forte do que aquela!”.1

Verdadeiramente começou o tempo da misericórdia, no qual o Salvador vai traçando a ouro as letras da Nova Lei. Por exemplo, na Nova Lei não há mais a pena de talião que obriga a “pagar com a mesma moeda” os danos que um faz contra outro (cf. Lv 24, 17-22), mas ordena ser perdoado o homem que se arrepende de uma falha cometida contra o próximo (cf. Lc 17, 3). Um outro aspecto surpreende os ouvintes: “não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2, 17). A Nova Lei extingue − de uma vez por todas − o desprezo vingativo pelo pecador, dando lugar ao perdão.

O Redentor, em várias ocasiões, dá a conhecer quanto era falsa aquela concepção humana de um Deus que repudiava, odiava e castigava de maneira irrevogável o indivíduo que houvesse cometido alguma falta, pois Ele assumira sobre Si os pecados dos homens (cf. I Pd 2, 24; II Cor 5, 19). Foi assim que surgiram as parábolas mais comoventes do Evangelho: a da ovelha perdida, a da dracma perdida e a do filho pródigo (cf. Lc 15, 4-32), nas quais Jesus deixa patente que veio para resgatar os perdidos, para curar os enfermos de coração, para perdoar os que voltam contristados por terem fugido da casa paterna. Nelas se revela “o perdão generoso que Deus concede ao pecador arrependido e a alegria que manifesta com sua conversão”.2 Eis a bondosa verdade contida nas parábolas e na vida do Divino Salvador!

O Divino Mestre manifestava de tantas maneiras sua bondade e os seus ensinamentos penetravam tão profundamente nas almas, que até os publicanos e os grandes pecadores se comprimiam em volta d’Ele para ouvi-lO. Muito longe de os afastar, Ele acolhia a todos e convertia grande número deles.3

Exemplos da vida do Redentor

É sobretudo em sua maneira de agir que Jesus mostra que o Altíssimo não quer o esmagamento dos homens, mas sim, mostra-lhes que “Deus nos criou para vivermos em íntima harmonia com a criação e para desfrutarmos da segurança que seu convívio proporciona”.4

Sentenças como “Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados” (Mt 9, 2), ao paralítico, “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz e sê curada do teu mal” (Mc 5, 34), à mulher que sofria de uma doença há doze anos; ou à pecadora arrependida “perdoados estão os pecados. […] Tua fé te salvou; vai em paz” (Lc 7, 48.50), atraíam aqueles que reconheciam sua contingência e que, arrependidos, procuravam reconciliar-se com Deus.

O Redentor era repleto de clemência para com todos. Quão belo é encontrarmos no Evangelho que Ele, “movido de compaixão”, ressuscitou o filho da viúva de Naim (cf. Lc 7, 13-14); “tomado de compaixão” pela multidão abatida e sedenta de sobrenatural, rogou ao Pai que enviasse homens dignos de dar continuidade à obra de misericórdia por Ele começada, e que trabalhassem não no campo, mas nas almas (cf. Mt 9, 36); “cheio de compaixão” pelos cegos que pediram devolvesse-lhes a vista, atendeu o seu pedido (cf. Mt 20, 34)! Contudo, Ele, que não quer a morte do pecador, mas que ele volte, se converta e tenha vida (cf. Ez 18, 23), e é boníssimo para com os que se reconhecem culpados e desejam purificar-se das faltas, é Ele mesmo também pleno de santa cólera para com os empedernidos nos seus erros e, por amor a Deus, é capaz de expulsar à base de chicotadas os que têm o atrevimento de fazer da casa de seu Pai uma casa de negociantes, um covil de ladrões (cf. Jo 2, 15-17; Mt 21, 13).

O Senhor realmente “odeia o pecado” 5 e, odiando-o, almeja que o pecador rejeite a perversidade e também a abomine. “O Rei-Messias quer que o coração dos seus súditos lhe pertença totalmente”,6 e por isso Ele não repele, mas chama o pecador e, qual Bom Samaritano, sana as chagas abertas pelos ladrões – demônio, mundo e carne. Como Bom Pastor, limpa as imundícies dos rebeldes que se meteram no lodo e nos espinhais dos vícios. Enfim, como Bom Médico da humanidade, não somente cura, mas oferece o remédio que desfaz o vício e acalma a rebeldia. Ou seja, Nosso Senhor, por misericórdia, busca afastar de sua presença a iniquidade, e ao invés de coabitar com ela, Ele a arranca.

Em contrapartida, isto suscitava um ódio violento da parte dos que se tinham por necessários: “Quem é este homem que profere blasfêmias ? Quem pode perdoar pecados senão unicamente Deus?” (Lc 5, 21). Sim, eles tinham razão, unicamente Deus pode perdoar os pecados! E aquele Homem diante do qual se encontravam era Deus, capaz de perdoar as fraudes de todos eles, se lhe pedissem perdão.

Ó misericórdia, tão ausente nos corações dos homens daquele tempo! Como foi difícil a tarefa do Salvador, convencendo seus escolhidos de que Deus não era o carrasco que imaginavam, pois, se até no relacionamento social a bondade estava depauperada, e era quase nula tanto mais era difícil para eles imaginá-la no Criador!

Continua no próximo post.

1 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. A Cruz, centro e ápice da História. In: O inédito sobre os Evangelhos. Comentário aos Evangelhos dominicais. Solenidades e festas que podem ocorrer em domingo, Quarta-Feira de Cinzas, Tríduo Pascal, outras festas e memórias. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiae, 2013, v. VII, p. 213-214.
2 FILLION, Louis-Claude. Jesus Cristo segundo os Evangelhos. Trad. Aureliano Sampaio. Porto: Civilização, 2007, p. 281.
3 Ibid. p. 281-282.
4 RATZINGER, Joseph. Dios y el mundo. Trad. Rosa Pilar Blanco. Barcelona: Galaxia Gutenberg, 2005, p. 73. (Tradução da autora).
5 ROYO MARÍN, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p. 89. (Tradução da autora).
6 FILLION. Op. cit. p. 154.