É possível sentir Jesus na Comunhão?

Bruna Almeida Piva

Eucaristia

Nosso Senhor Jesus Cristo está verdadeiramente presente no Santíssimo Sacramento. Porém, não O está sensivelmente, ou seja, não O podemos ouvir, ver ou tocar, pois está oculto sob as sagradas espécies. Deus assim quis para que, pelos méritos da fé, obtivéssemos a salvação eterna.

Imaginemos se isto não fosse assim, e se Nosso Senhor Se fizesse perceptível aos nossos sentidos; se nós pudéssemos ver, por exemplo, “um pequeno movimento de sua mão divina, e observar seu pulso, considerando que ali pulsa o Sagrado Coração de Jesus, uma vez que a pulsação do Coração se reflete nas veias”[1]; ou se pudéssemos ouvir sua santa voz, grave, séria e muito suave ao mesmo tempo, nos dizendo palavras de consolação, ou mesmo de correção. Que respeito, que júbilo, que alegria não teríamos em relação a esse sublime Sacramento!

Ora, Nosso Senhor está na Hóstia; nós não O vemos, mas cremos. Ao chegar a hora da comunhão na Santa Missa quantas vezes pensamos: “Agora vou comungar, e Jesus vai estar realmente presente em mim. Será que Ele não vai me dizer nada?” Sim! No interior de nossas almas, Ele dirá: “Meu filho, quando dois estão juntos, um sente o outro. Será que quando Eu estou em ti não sentes nada? Ouve a linguagem silenciosa de minha presença, que não te fala aos ouvidos. Presta atenção em Mim! Eu estou em ti, a graça te fala. Tu não sentes nada?”[2]

Já dizia um sábio sacerdote do século XIX: “Voz de Cristo, voz misteriosa da graça que ressoais no silêncio dos corações, vós murmurais no fundo das nossas consciências palavras de doçura e de paz”.[3] É um silêncio que diz muito mais que mil palavras; “é algo que comunica luz, amor, força. E permanece em nossa alma, embora para muitos pareça ser passageiro”.[4] Apesar de não O podermos perceber através dos sentidos, Ele não deixa de nos falar à alma, e de nos enriquecer com Sua presença. A cada comunhão que, pelos rogos de Maria Santíssima, recebemos, a inteligência se torna mais perspicaz para os assuntos da fé, o amor a Deus e ao sobrenatural cresce, e nossas forças para vencer as tentações e fazer sacrifícios, assim como a vontade de lutar contra nossos pecados e más inclinações, se multiplicam por si mesmas.[5]

Nesta vida, pode nos ser uma provação o fato de não podermos ver a Nosso Senhor na Eucaristia. Porém, se ficarmos firmes na fé, e formos ardorosos devotos desse sublime Sacramento, na vida futura isso nos será motivo de grande alegria, como diz São Pedro: “Deste modo, a vossa fé será provada como sendo verdadeira,mais preciosa que o ouro perecível, que é provado no fogo, e alcançará louvor, honra e glória, no dia da manifestação de Jesus Cristo. Sem ter visto o Senhor, vós o amais. Sem o ver ainda, nele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação”. (I Pd 1, 7-9)

Sejamos assíduos frequentadores das Santas Missas, fervorosos “ouvintes” das misteriosas vozes divinas que clamam em nós, seja em meio às consolações ou durante as provações, e, no Céu, poderemos, enfim, ver, sentir e até mesmo abraçar a Nosso Senhor Jesus Cristo durante toda a Eternidade.

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[1] CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Eucaristia, eixo da piedade católica. Dr. Plinio, São Paulo, n. 156, mar. 2011, p. 30.
[2] Cf. Loc. cit.
[3] SAINT-LAURENT, Thomas de. O livro da Confiança. São Paulo: Teixeira, [s. d.], p. 9.
[4] CORRÊA DE OLIVEIRA. Op. cit., p. 30.
[5] Cf. Loc. cit.

Doce presença de Jesus Cristo sobre a Terra

Bruna Almeida Piva

Encontramos no Evangelho inúmeras passagens que narram milagres feitos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Vemos cegos, coxos, paralíticos e leprosos sendo curados, e até mesmo alguns, como Lázaro e a filha de Jairo, sendo ressuscitados pela misericórdia do Salvador.

Conhecendo tão estupendos milagres, quantos de nós já desejamos ardentemente viver na mesma época de Nosso Senhor, para assim alcançar d’Ele algum prodígio semelhante! Quantos de nós já ansiamos, ao menos, poder tocar em sua túnica e receber assim alguma graça especial… Porém, apesar desses desejos serem inteiramente legítimos, estamos enganados se pensamos que essas graças somente são alcançadas por aqueles que tiveram o privilégio de estar junto a Jesus Cristo no tempo de sua vida terrena.

Corpus_Christi_ArautosCerta vez, o Profº Plinio Corrêa de Oliveira comentou que ele não compreenderia se Nosso Senhor, em sua infinita misericórdia, houvesse partido para o Céu e deixado, de alguma maneira, de estar presente sobre a face da terra. 1 De fato, Ele não o fez, pois na quinta-feira anterior ao seu Sacrifício, deixou-nos o inestimável e magnífico tesouro da Santíssima Eucaristia. “Seu Coração Eucarístico nos deu a presença real de seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Ele está presente por toda a terra, em todos os tabernáculos onde há hóstias consagradas, desde as mais belas catedrais até as missões mais longínquas e pobres. Ali está Ele como doce companheiro de nosso exílio, à nossa espera, com pressa para nos salvar, desejando que lhe peça”. 2

Com efeito, Nosso Senhor está todo nesse excelso sacramento em Corpo, Sangue e Alma, e em Divindade. A hóstia que vemos no altar é o próprio Cristo, presente da mesma forma que estava entre seus apóstolos e discípulos, apesar de nossos sentidos não poderem percebê-Lo.

Outro obséquio é de podermos receber este preciosíssimo Sacramento na Comunhão, graça superior até mesmo à que recebeu Santo Estevão quando criança, ao ser abraçado por Nosso Senhor, ou à que obteve o Apóstolo São João, ao recostar-se sobre o Sagrado Coração de Jesus na última Ceia. Pois, ao comungarmos, Cristo não só nos abraça, mas nos possui inteiramente, não só nos faz reclinar a cabeça sobre seu peito, mas põe seu Coração junto ao nosso; e nossa alma, nesse celestial encontro, se reveste da alvura e santidade do próprio Senhor Jesus.

“Nosso Senhor não podia inclinar-se mais a nós, os mais pobres, os mais necessitados e miseráveis, não podia demonstrar mais o seu amor quando, no momento supremo de privar-nos de sua presença sensível, quis deixar-se a Si mesmo entre nós, sob os véus eucarísticos”. 3

Portanto, quando nos sobrevier o desejo de estar pessoalmente diante de Nosso Senhor Jesus Cristo, de progredir nas vias da virtude, ou quando quisermos alcançar d’Ele alguma graça, não sintamos que Ele está longe de nós, mas nos aproximemos do Santíssimo Sacramento, e certamente obteremos tais favores com a mesma eficácia – ou até maior, pelo mérito da fé – do que se estivéssemos na frente de Nosso Senhor da mesma forma que os Apóstolos.

Diante de tanto consolo e amor que encontramos nesse insigne sacramento, grande é a vontade de passar a eternidade inteira desfrutando de seus benefícios. Ora, sabemos que eles nos são concedidos enquanto ainda vivemos nesta terra. Continuaremos nós a recebê-los no Céu? Ou será da vontade de Nosso Senhor que essas graças sejam recebidas somente pelos homens em estado de prova?

Neste sentido, Monsenhor João explica que, uma vez que o sacramento visa produzir a graça, de acordo com o que a forma e a substância simbolizam, não faz sentido que haja comunhão ou qualquer outro sacramento no Céu 4, pois a graça existirá em nossa alma de maneira estável e permanente. Recebemos nessa vida a presença eucarística real de Nosso Senhor em nossa alma para que Ele nos santifique, nos torne semelhantes a Ele, e nos fortaleça contra todo mal; no Céu isso não será necessário, pois o veremos face-a-face e o possuiremos em tempo integral.

Ademais, segundo os teólogos católicos 5, não haverá Missa Sacramental na Eternidade. Haverá a Missa Mística: “Nosso Senhor Jesus Cristo passará a eternidade enquanto homem, de dentro de Sua humanidade, oferecendo [ao Pai], como Sumo Sacerdote, […] a glória do Sacrifício oferecido por Ele. […] Nós teremos constantemente no Céu a Missa sendo celebrada misticamente, […] e nós estaremos eternamente participando deste oferecimento feito por Nosso Senhor”. 6

Contudo, apesar da visão beatífica ser o maior prêmio que Deus poderia conceder aos homens justos, o que está presente no Santíssimo Sacramento é o próprio Autor da Graça. “É, portanto, algo que vale mais do que toda a ordem da Criação, vale mais do que, inclusive, a ordem da Graça. Juntemos todas as graças que a humanidade recebe, receberá e recebeu; todas as graças que existem em Nossa Senhora não dão, nem de longe, o que está numa partícula consagrada: a recapitulação do Universo (cf. Ef 1, 10) num pedaço de pão”. 7

Diante de tão inefável dom, o que podemos fazer para agradecer a Deus, ou ao menos, para Lhe conceder alguma alegria, por tanta bondade? Certamente, está fora do alcance de qualquer ser humano agradecer-Lhe dignamente; porém, Ele nada pede de nós a não ser que sejamos devotos da Sagrada Eucaristia, tanto quanto se possa ser. Comunguemos frequentemente, com as devidas disposições; visitemos as igrejas e capelas nas quais Ele se encontra exposto; entreguemo-nos por inteiro a Ele, com tudo quanto somos e possuímos, e Lhe daremos a melhor recompensa, em busca da qual Ele aceitou ser morto e crucificado: a nossa salvação.


1 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A presença de Cristo entre os homens na sua vida terrena e na Eucaristia. Revista Dr. Plinio. São Paulo. Ano VI. n. 63 (Junho, 2003); p. 23.
2 CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Conferência. São Paulo. Arquivo IFTE.
3 CLÁ DIAS, João Scognamiglio apud MORAZZANI ARRÁIZ, Teresita. Aula de Teologia Sacramental no Instituto Filosófico-Teológico Santa Escolástica – IFTE. Caieiras, 2015. (Apostila).
4 Cf. Ibidem.
5 Ibidem.
6 Ibidem.
7 Ibidem.

À espera de um pedido

Ir. Ana Rafaela Maragno, EP

Apesar de tão numerosos favores concedidos pela Providência, Adão, enganado pela astuta serpente pecou acarretando para si a perda de todos os privilégios sobrenaturais com os quais Deus o havia cumulado. Expulso de seu reino e arrancada de sua fronte a coroa dos dons preternaturais, passou a viver na contingência de sua natureza formada do barro. Ecoava-lhe ainda aos ouvidos a sentença divina:

[…] maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto até que voltes à terra da qual foste tirado; porque és pó, e ao pó te hás de tornar (Gn 3, 17-19).

Iniciou-se uma nova fase para Adão, caracterizada pela experiência das suas debilidades e fraquezas, consequência do seu pecado. E, agora, se encontravam irremediavelmente fechadas para ele as portas daquele jardim de delícias do qual fora expulso. Será que o relacionamento com seu Criador estava cortado para todo o sempre? Não haveria um meio de encontrar-se com Ele e de falar-lhe?

Esse grande meio Deus lho proporcionou através da oração. “Ela é o diálogo do homem com Deus” 1 . Por meio dela Adão e os seus filhos supririam em si aquelas saudades imensas do paraíso, diminuiriam a distância entre Criador e criatura, proporcionando a possibilidade de se aproximar, de falar e de conviver com Deus e conquistariam o Céu que lhes fora prometido.

A oração tem o poder de abrir os tesouros de Deus e atrair sobre o orante as chuvas das bênçãos divinas. Tanto agrada a Deus a prece sincera e confiante que, por vezes, Ele tarda em atender, a fim de que a alma, crescendo no desejo, redobre a insistência de seus pedidos e seja coroada de méritos.

Tendo o Filho de Deus vindo ao mundo, ensinou ao homem a importância da oração e incutiu-lhe a confiança nela, quer por meio de parábolas, quer, sobretudo, através de seu Divino exemplo, desdobrando-se em solicitude, desvelo e amor sobre todos aqueles que d’Ele requereram algum favor. Não houve ninguém que saísse de sua presença com as mãos vazias…

Esse mesmo Jesus que a todos atendeu com solicitude, não partiu para o Céu de maneira definitiva e irremediável, mas quis permanecer na Terra, convivendo entre os homens. “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo!” (Mt 28, 20).

Ele encontra-Se em todos os sacrários do mundo, sob o véu das espécies eucarísticas, à espera de nossa visita, pronto para ouvir nossas súplicas. Feito Homem como nós e tendo experimentado a nossa fraqueza, conhece tudo aquilo de que carecemos e sabe compadecer-se de nossas misérias.

Como outrora pelas estradas da Galiléia ou sob os pórticos do Templo de Jerusalém, Jesus detém-se ante o triste espetáculo da lepra espiritual que corrói as almas ou da cegueira que as mantêm longe de seu amor. Contudo, seu olhar misericordioso abrange a todos num infinito desejo de perdoar, inclinando-se sobre cada um de seus filhos, com ternura de pai e benquerença de irmão, para cumulá-los de dons e atendê-los em seus anseios. Está apenas à espera de um pedido, de uma súplica, de um simples suspiro a Ele dirigido, para cumprir sua irrevogável promessa: “Qualquer coisa que me pedirdes em Meu nome, vo-lo farei” (Jo 14, 14).

1“Es el dialogo del hombre con Dios” (SÃO JOÃO CLÍMACO. In: LOARTE, José Antonio. El tesoro de los Padres: Selección de textos de los Santos Padres para el Cristiano del tercer milenio. Madrid: Rialp, 1998. p. 345.

Convertido pela Eucaristia

Irmã María Lucilia Morazzani Arráiz, EP

Percorrer as páginas da Escritura equivale a deparar constantemente com portentos e maravilhas que nos enchem de admiração. Se nos fosse dado ver o mar Vermelho dividido em duas grandes muralhas de água para dar passagem ao povo eleito e, voltando ao seu curso normal, afogar a flor do exército do faraó com seus carros e cavalos, ou se pudéssemos contemplar Moisés, por ordem de Deus, golpeando com seu cajado a rocha para dar de beber aos filhos de Israel, seríamos levados a julgar que esses são prodígios insuperáveis, próprios do Antigo Testamento.

Entretanto, tais maravilhas não passam de manifestações humanas do poder de Deus e pálidas representações de Sua suprema grandeza, se comparadas à ação infinitamente superior operada pelo Criador nas almas de Suas criaturas, atraindo-as irresistivelmente a Si mesmo.

A graça da conversão é uma obra exclusiva de Deus, uma imposição que abarca a alma por inteiro e a leva a agir como nunca faria por suas forças naturais, pois “o homem não pode predispor-se para receber a luz da graça a não ser que um auxílio gratuito de Deus venha movê-lo interiormente”. E “o livre arbítrio não pode converter-se para Deus, a não ser que Deus o converta para Si, segundo o que diz o livro de Jeremias: ‘Convertei-me, Senhor, e eu me converterei’”. 1

Por vezes encontramos almas que, tendo levado uma vida de desvios e de pecados, foram por Deus arrebatadas dos caminhos do inferno, e agora brilham como estrelas rutilantes no firmamento da santidade, formando um longo cortejo de bem-aventurados que cantam as misericórdias do Altíssimo.

* * *

Há poucos dias, caiu-me nas mãos uma obra do abade francês Charles Sylvain que narra a inesperada conversão de um israelita, operada pelo Santíssimo Sacramento. Iniciei a leitura com certo desinteresse que se transformou, já nas primeiras páginas do fascinante relato, em verdadeira avidez. Confesso que não consegui parar, e nisso se foram meu almoço, meu descanso e outros afazeres. Devorei, isto sim, o livro, e senti-me profundamente comovida ante a infinita bondade de Jesus-Hóstia. Fiz o propósito de tornar a história conhecida, a fim de fortalecer a fé periclitante de tantas almas naufragadas nos vagalhões do mundo contemporâneo e favorecer um maior número de cristãos a se deixarem abrasar pelas chamas puríssimas que brotam do Sagrado Coração Eucarístico de Jesus, fornalha ardente de caridade.

Inquietudes religiosas

Nascido na cidade de Hamburgo em 1820, no seio de uma família judia da tribo de Levi, Hermann Cohen recebeu desde a mais tenra idade uma esmerada educação, condizente com a fortuna de seu pai, um opulento negociante. Não tardaram os parentes em perceber as extraordinárias disposições do menino para a música, e encaminharam o pequeno prodígio para seguir a carreira de artista.

Nos primeiros anos de sua vida, Hermann sentia uma misteriosa apetência pelas cerimônias religiosas e um grande pendor para a oração, chegando a experimentar profundas emoções ao invocar o Deus Santo de Israel. Estas impressões, porém, foram afogadas pelo vertiginoso desenvolver do germe da vaidade em sua alma. Tudo quanto ele fazia era coroado de êxito; o incenso, os elogios e os aplausos inflamavam seu fogoso coração que já não procurava senão sua própria glória e a plena satisfação de seus mínimos caprichos.

Em vão buscava a felicidade

Em pouco tempo o nome do pianista Hermann, menino genial, ressoava nos meios mais ilustres das principais capitais européias, e seu prestígio aumentava a cada dia.

Conduzido por sua mãe a Paris, privava com grandes personalidades de seu tempo, entre as quais o célebre Franz Liszt, de quem foi inseparável aluno por longos anos.

Êxitos, honrarias, celebridade, os prazeres em que os artistas passam parte de seu tempo, as viagens, as aventuras, tudo aparecia com cores róseas na minha imaginação, extraordinariamente desenvolvida para minha idade2.

Más companhias e funestas influências acabaram por corromper e desviar completamente o jovem, tornando-o escravo de suas paixões e incapaz de negar qualquer coisa a si mesmo. Ele caiu numa lamentável situação, afundou-se nos vícios mais indesculpáveis, abraçou as ideias mais liberais e desvairadas da época e lançou-se numa corrida desenfreada à procura de tudo aquilo que pudesse alimentar seus delírios e fantasias.

A felicidade! Eu a busquei, e para achá-la, percorri as cidades, atravessei os reinos, cruzei os mares. A felicidade! […] Onde não a procurei?3.

Sim, em vão tentava ele saciar a sede de felicidade que o atormentava, e quanto mais se afanava em buscá-la, tanto mais ela lhe escapava das mãos e lhe dava as costas. Com efeito, a taça de todos os prazeres parecia estar envenenada, pois nela seus lábios não encontravam mais que insatisfação, fastio e amargura. Era a mão da Providência que secreta e misteriosamente o preparava para Si.

Seduzido pela Eucaristia

Nessas condições se encontrava quando, em maio de 1847, um amigo seu, o Príncipe de Moscowa, solicitou-lhe que o substituísse na regência de um coral na igreja de Santa Valéria, em Paris, ao que Hermann aquiesceu.

Celebravam-se então as festividades do mês de Maria. No momento em que, após a Missa, o sacerdote deu a bênção com o Santíssimo Sacramento, Hermann experimentou “uma singular emoção, como remorsos de ter parte nessa bênção na qual ele não tinha direito algum de estar incluído”. 4Era uma consolação doce e forte que lhe proporcionou um “alívio desconhecido”.

Nas sucessivas vezes em que Hermann retornou à igreja, sentia sempre idêntica e inexplicável impressão quando o sacerdote dava a bênção com o ostensório. Terminadas as solenidades de maio, e arrastado por um forte impulso, o jovem passou a frequentar as missas dominicais na mesma paróquia de Santa Valéria.

Apesar dos diversos escolhos postos pelo inimigo de nossa salvação — furioso por perder sua presa — Hermann entrou em contato com um piedoso sacerdote, o Pe. Legrand, que lhe deu uma boa orientação doutrinária e alentadores conselhos.

A conversão

Obrigado a partir para Ems, na Alemanha, para dar um concerto, assim que lá chegou, apressou-se em buscar uma igreja. Queria ele participar da Celebração Eucarística, sem manifestar nenhum respeito humano diante de seus amigos. Deixemos à própria pena de Hermann a narração do que lhe ocorreu naquele inesquecível dia.

Pouco a pouco os cânticos, as orações, a presença — embora invisível, sentida por mim — de um poder sobre-humano, começam a agitar-me, a perturbar-me, a me fazer tremer; em uma palavra, a graça divina se apraz em derramar-se sobre mim com todas as forças.

Subitamente, no momento da elevação, sinto brotar através de minhas pálpebras um dilúvio de lágrimas que não cessa de derramar-se em abundância sobre minha face em chamas… Ó momento para sempre memorável para a saúde de minha alma! Eu te tenho presente em meu espírito com todas as sensações celestes que me trazias do alto! […] Experimentei então o que sem dúvida Santo Agostinho deve ter sentido no jardim de Casicíaco ao ouvir o famoso ‘Tolle, lege’. […]

Lembro-me de ter chorado algumas vezes na minha infância, mas jamais tinha conhecido semelhantes lágrimas. Enquanto elas me inundavam, senti surgir no mais fundo da alma dilacerada por minha consciência, os mais lancinantes remorsos por toda a minha vida passada.

Então, espontaneamente, como por intuição, comecei a manifestar a Deus uma confissão geral, interior e rápida de todas as enormes faltas cometidas desde minha infância. […] Sentia, ao mesmo tempo, por uma calma desconhecida que invadiu minha alma como bálsamo consolador, que o Deus de misericórdia me perdoaria, desviaria Seu olhar de meus crimes, teria piedade de minha sincera contrição e de minha amarga dor… Sim, senti que me concedia Sua graça, e que, ao me perdoar, aceitava como expiação minha firme resolução de amá-Lo sobre todas as coisas, e desde aquele momento me converti a Ele.

Ao sair dessa igreja de Ems, já era cristão. Sim, tão cristão quanto é possível sê-lo antes de receber o Santo Batismo…”. 5

Árduos combates

Seguiu-se um curto período de admirável fervor e duros combates, em que nosso jovem, fugindo dos ruídos do mundo, dedicou-se com empenho ao estudo da doutrina católica, cujas práticas observava como se já estivesse batizado.

O demônio, porém, quis impedir a qualquer preço que aquela alma escolhida lhe fosse arrancada para sempre. Isto valeu a Hermann uma terrível e derradeira batalha, na noite que precedeu o seu Batismo: “Enviou-lhe um sonho de representações sedutoras e renovou-lhe vivas imagens que considerava para sempre banidas de sua memória” 6.

Oprimido por essa visão aterradora, Hermann se atirou aos pés do crucifixo e, com os olhos cheios de lágrimas, implorou-Lhe socorro, pela mediação da Virgem Santíssima. Imediatamente fugiu a tentação e ele levantou-se fortificado e vitorioso, disposto a todas as lutas que de sua nova condição iriam resultar.

O batismo

Com grande entusiasmo recebeu o santo batismo no dia 28 de agosto de 1847, festa de Santo Agostinho, cujo nome adotou. Em carta dirigida ao Pe. Afonso Maria Ratisbonne, judeu converso como ele, o jovem neófito descreveu o desenrolar da cerimônia e o que experimentou no momento em que a água, derramando-se sobre sua fronte, lhe conferia a vida divina:

Meu corpo estremeceu, e senti uma comoção tão viva, tão forte, que não saberia compará-la a não ser com o choque de uma máquina elétrica. Os olhos de meu corpo se fecharam ao mesmo tempo em que os da alma se abriram para uma luz sobrenatural e divina. Encontrei-me como mergulhado num êxtase de amor, e, tal como a meu santo padroeiro, pareceu-me participar, por um impulso do coração, dos gozos do Paraíso e beber a torrente de delícias com as quais o Senhor inunda seus eleitos na terra dos vivos…7.

Após a conversão, a vida e os costumes de Hermann sofreram uma completa transformação. Entregou-se com ardor a todas as obras de zelo e piedade, e sua natureza fogosa, apaixonada e enérgica, passou a agir unicamente sob o influxo da graça.

Esperavam-no ainda alguns anos de tormento, pois, apesar de seu vivo desejo de se tornar religioso, diversas circunstâncias o obrigaram a permanecer no mundo por certo tempo. A prática da oração foi seu sustento, e a Sagrada Eucaristia sua vida. Instituiu, em companhia de Mons. de la Bouillerie, então Vigário Geral de Paris, a adoração noturna que logo se espalhou por mais de cinquenta dioceses da Europa.

Vida religiosa

Aos vinte e oito anos de idade, em outubro de 1849, foi admitido na Ordem dos Carmelitas Descalços, recém-reformada na França, com o nome de Frei Agostinho Maria do Santíssimo Sacramento. No ano seguinte fez sua profissão religiosa, e em 1851 foi ordenado sacerdote. Uma carta dirigida a um amigo, poucos dias antes de sua ordenação, é prova da profunda seriedade com que recebeu esse sacramento:

Serei sacerdote no Sábado Santo e cantarei a Missa no Domingo de Páscoa. Nem você nem eu, querido filho, conheceremos jamais nesta vida terrena o que encerra de grandeza e majestade o temível mistério dos altares, ao qual os anjos assistem tremendo” 8.

A vida religiosa do Pe. Hermann transcorreu em profunda humildade, sofrimentos de toda ordem e graças místicas impressionantes. Apesar de ser uma alma intensamente contemplativa, foi impelido pela vontade divina a uma grande atividade evangelizadora: contínuas viagens, fundações de vários mosteiros, pregações que reuniam multidões de fiéis e direções espirituais interrompidas apenas por curtos períodos de absoluto recolhimento.

Seu amor a Jesus era tão forte que, apesar da debilidade de sua saúde, não poupava esforços para atrair a Ele o maior número possível de almas, e fez voto de mencionar a Eucaristia em todos os seus sermões. Ao seu incansável zelo, à eloquência de sua palavra e ao estímulo de seus exemplos, devem-se incontáveis conversões, entre elas as de dez membros de sua família e de vários outros judeus.

Seu talento musical, que outrora o tinha levado à perdição, ele agora o empregava em louvor do Santíssimo Sacramento e da Virgem Maria, compondo belíssimos cânticos a Eles devotados.

Manteve laços de amizade com grandes figuras católicas da época, como o Santo Cura d’Ars, São Pedro Julião Eymard, Santa Bernadette Soubirous, o Cardeal Wiseman.

Último campo de batalha

Após anos de frutuoso apostolado na França, Inglaterra, Bélgica e Suíça, em novembro de 1870 foi enviado por seus superiores à Prússia, como capelão dos prisioneiros de guerra franceses. Ali deu mostras de infatigável dedicação, deixando-se consumir como hóstia pura ao serviço da Igreja. Em 22 de dezembro descrevia suas ocupações e alegrias com estas palavras:

Os prisioneiros me cercam desde as oito da manhã até a noite. Entreguei-me a eles, e estão me usando o quanto podem, e me usarão até me consumir9.

Com efeito, em janeiro do ano seguinte, ao ministrar os últimos sacramentos a dois soldados moribundos atacados de varíola, contraiu, ele mesmo, esta doença que o levaria à morte. Tomado por forte crise, recebeu a Unção dos Enfermos, renovou seus votos religiosos e, apesar das atrozes dores de que padecia, cantou em alta voz o Te Deum, o Magnificat, a Salve Regina e o De Profundis.

Finalmente, na noite de 19 de janeiro, tendo piorado muito, confessou-se e recebeu pela última vez aquele Jesus Eucaristia que depois de sua conversão fora o único objeto de todas as suas aspirações e desejos. Permaneceu por longo tempo absorto em ação de graças, e um pouco mais tarde seus companheiros pediram-lhe a bênção. Em seguida, extenuado, deixou-se cair novamente em seu leito, murmurando:

E agora, meu Deus, em Vossas mãos entrego o meu espírito!10.

Foram suas derradeiras palavras, depois das quais permaneceu calmo e imóvel durante toda a noite, até as dez horas da manhã, quando fez um ligeiro movimento e expirou santamente nos braços de seu amado Jesus.

1 Suma Teológica I-II, q. 109, a. 6.
2 SYLVAIN, Charles. Hermann Cohen, Apóstol de la Eucaristía. Estella: Gráficas Lizarra S.L., 1998. p.7.
3 Idem, ibidem, p. 61.
4 Idem, ibidem, p. 23. 5
5 Idem, ibidem, p. 24.
6 Idem, ibidem, p. 26.
7 Idem, ibidem, p. 27.
8 Idem, ibidem, p. 50.
9 Idem, ibidem, p. 136.
10 Idem, ibidem, p. 138.

Uma grande alegria

Natal4Irmã Clara Isabel Morazzani Arráiz,EP

Assim como os pastores encontraram aquele adorável Menino reclinado sobre as palhas do presépio, nós também podemos reencontrá-Lo “reclinado” nos Tabernáculos de todo o mundo.
Era noite. Os pastores que apascentavam seus rebanhos tinham acabado de ouvir o anúncio da Boa Nova que o Anjo lhes fizera, e disseram entre si: “Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou” (Lc 2, 15). Partiram então “com grande pressa” (Lc 2, 16) para a gruta, a fim de adorar o Verbo feito carne e servir de testemunhas do grande acontecimento para as épocas futuras.

Docilidade à voz do Anjo

Ao compreenderem o significado da notícia — a chegada do Messias — os pastores haviam sido tomados de um misto de temor reverencial e de consolação, mas não duvidaram sequer um segundo. Bastou a mensagem transmitida pelo celeste embaixador para robustecê-los na fé e confirmar suas esperanças.

Sem dúvida, a luminosa aparição do Anjo veio acompanhada de uma graça especial que os fazia pressentir a grandeza do acontecimento anunciado. Flexíveis à voz do sobrenatural, não manifestaram reservas, não opuseram objeções; pelo contrário, deixaram tudo, abandonando com presteza até mesmo os rebanhos confiados à sua guarda e se dirigiram sem demora em busca do “Recém-nascido, envolto em faixas e posto numa manjedoura” (Lc 2, 12).

Ali, como os Apóstolos que, anos mais tarde, seriam chamados de bem-aventurados pelo Divino Mestre, também eles poderiam ter ouvido dos lábios do Salvador: “Felizes os vossos olhos porque vêem! Ditosos os vossos ouvidos porque ouvem!” (Mt 13, 16).

A humildade dos pastores atraiu o olhar de Deus

Aqueles rudes camponeses foram objeto dessa predileção, por parte da Bondade Divina, muito mais por serem pobres de espírito do que por sua modesta condição social. A virtude da humildade, que os tornava aptos para compreender os mistérios de Deus, sem opor ceticismos arrogantes, atraiu sobre eles os olhares do Altíssimo, da mesma forma como Maria Santíssima, por Sua insuperável despretensão, foi escolhida para ser Mãe do Redentor.

Já em Seu nascimento Jesus mostrava, assim, Seu amor pelos mais pequeninos, por aqueles que, reconhecendo seu nada ou até mesmo sua falência espiritual, põem toda a sua confiança no poder de Deus.

Há quem possa ver nessa atitude de submissão diante de Deus, tão própria aos santos de todos os tempos, uma desprezível manifestação de ignorância ou insuficiência. Mas essa é a opinião daqueles que o próprio Jesus denominaria como os “sábios e entendidos” (Mt 11, 25) deste mundo e que, por conseguinte, acham-se privados do conhecimento das coisas divinas, por cegarem-se a si mesmos.

A sabedoria verdadeira — esta sim, possuíam-na os pastores —, alcançaraa em altíssimo grau a virginal Senhora que Se inclinava em adoração ante a mísera manjedoura transformada em trono real. Movidos por essa “sabedoria da humildade”, os pastores haviam corrido até o estábulo e contemplavam a Sabedoria em Pessoa, que repousava placidamente sobre as palhas: “Ela apareceu sobre a terra, e habitou entre os homens” (Br 3, 38).

O presépio de Belém e os altares da Igreja

Hoje, de certo modo, se repete a cada dia o mistério de Belém. Dois milênios depois do nascimento de Cristo, as igrejas se encontram multiplicadas pelo mundo, e nos seus Tabernáculos repousa Jesus, verdadeiramente presente, embora oculto sob os véus do Pão Eucarístico, assim como repousou outrora sobre as palhas da manjedoura, envolto nos panos que Maria Santíssima Lhe preparara.

A mesma presteza que admiramos nos pastores deve impelir-nos, também nós, a deixar tudo e correr para o altar, a fim de encontrar o Senhor que desce do Céu. Nos altares da Igreja, obediente à voz do sacerdote, nasce Nosso Senhor Jesus Cristo uma vez mais, fazendo-nos lembrar a maneira como Ele Se apresentou ante os olhares maravilhados da Virgem Mãe, de São José e dos pastores, naquela noite santa.

O Natal não é uma mera recordação histórica

A festa de Natal encerra um significado litúrgico extraordinário: embora o Santo Sacrifício seja oferecido todos os dias nos altares de tantas igrejas espalhadas pelo mundo, ele se reveste de uma unção e densidade simbólicas particulares na noite de 24 para 25 de dezembro.

Não se trata apenas da recordação de fatos históricos envoltos nas brumas do passado, mas de uma realidade mais profunda do que aquela que captamos através dos sentidos. A Liturgia do Natal traz um conjunto de graças vinculadas a esse mistério, as quais se derramam sobre nossos corações quando o celebramos com fervor sincero.

O ano litúrgico — ensinava o Sumo Pontífice Pio XII — que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos. É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por Ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem, com o fim de colocar as almas humanas em contato com os Seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor”.1

igreja_arautosA Fé em Nosso Senhor, deitado na manjedoura e presente na Eucaristia

Hoje não vemos, como os pastores, o Divino Menino deitado sobre as palhas, mas contemplamo-Lo, com os olhos da Fé, na Hóstia imaculada que o sacerdote apresenta para a adoração dos fiéis; não ouvimos as vozes dos anjos fazendo ecoar o “Glória!” pelas vastidões dos céus, mas chega até nós o apelo da Igreja, convidando seus filhos: “Venite gentes et adorate!”.

Se grande foi a Fé daqueles homens simples ao acreditarem que, naquele pequenino vindo à terra em tal despojamento, e aquecido tão-só pelo bafo dos animais, ocultava-Se o próprio Deus, a nossa Fé poderá alcançar grau mais elevado se considerarmos esse mesmo Deus escondido na Eucaristia. E poderemos, nós também, ser contados entre os homens que o Senhor chamou de bem-aventurados: “Felizes aqueles que crêem sem ter visto!” (Jo 20, 29).

Jesus, a Beleza suprema, vela-Se em vão aos olhos de quem tem Fé: apesar da infância à qual O reduziu seu amor, seu poder se manifesta nesse dia, e só Ele — quer sob a figura de frágil criança, quer sob as espécies eucarísticas — derrota os infernos e resgata a humanidade da vil escravidão do pecado.

Natal: uma “clareira” alegre e luminosa

Quantas graças de alegria e consolação concedidas por ocasião do Natal! A cada ano, em todas as épocas da Era Cristã, esta festa máxima abre uma “clareira” alegre e luminosa no curso normal, por vezes tão cheio de sofrimentos e angústias, da vida de todos os dias. Dominados pelas preocupações concretas ou pela ilusão deste mundo passageiro, os homens esquecem-se facilmente da eternidade que os espera e olham para esta terra como para seu fim último.

Todos se afanam em busca da felicidade; entretanto, só uma é a verdadeira, e o Divino Menino vem para apontar o único caminho que a ela conduz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6). E nessa noite silenciosa, todos param diante da gruta de Belém, gozando, ainda que por alguns instantes, dessa alegria envolvente, trazida pelo Redentor. “Ali, os maus cessam seus furores, ali, repousam os exaustos de forças, ali, os prisioneiros estão tranquilos, já não mais ouvem a voz do exator. Ali, juntos, os pequenos e os grandes se encontram, o escravo ali está livre do jugo do seu senhor” (Jó 3, 17-19).

De onde vem a felicidade que sentimos no Natal?

Prolonguemos esses momentos de alegria vividos aos pés da manjedoura ou em torno do altar. De onde nos vem, ao certo, essa felicidade? Onde a poderemos encontrar?

Encarnando-Se, Deus quis fazer-Se um de nós, para tornar essa felicidade ainda mais acessível, mais atraente, mais encantadora. Ao entrar neste mundo, o Divino Infante abre seus braços num gesto que prenuncia Sua missão salvadora e parece exclamar: “Eis que venho. […] Com prazer faço a vossa vontade” (Sl 39, 8-9), manifestando neste ato Sua perfeita obediência ao Pai, selada no Getsêmani: “Faça-se a vossa vontade e não a minha” (Lc 22, 42).

Assim, na esplendorosa noite de Natal inicia-se o grande mistério da Redenção, em sua dupla perspectiva: é o perdão concedido ao homem réu, manchado pela culpa de Adão e por suas más ações; e também a elevação desse mesmo homem à ordem sobrenatural, convidando-o a participar da Família Divina, pelo dom da graça. Nessa adorável Criança vemos nossa pobre natureza galgar alturas inimagináveis, às quais seria incapaz de subir por suas próprias forças, e entrar na intimidade do Deus inacessível e infinito.

Celebramos a nossa própria deificação

O santo Papa Leão Magno, em seu célebre sermão sobre o Natal, mostrou, com palavras inspiradas, essa alegria universal que nos traz o nascimento de Cristo:

“Ninguém está excluído da participação nesta felicidade. A causa da alegria é comum a todos, porque Nosso Senhor, vencedor do pecado e da morte, não tendo encontrado ninguém isento de culpa, veio libertar a todos. Exulte o justo, porque se aproxima da vitória; rejubile o pecador, porque lhe é oferecido o perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida”.2

No Redentor, reclinado no presépio, vemos nossa humanidade, reconhecemos nEle um Irmão, “em tudo semelhante a nós, exceto no pecado” (Hb 4, 15); nos pastores, e em todos aqueles que circundam a manjedoura ou o altar, admiramos uma luz, de fulgor até então desconhecido, que brilha, expulsando as trevas da maldição do pecado no qual estavam envoltos. “Oh admirável intercâmbio! O Criador do gênero humano, assumindo corpo e alma, quis nascer de uma Virgem; e, tornando-Se homem sem intervenção do homem, nos doou sua própria divindade!”.3

Celebramos, pois, no Natal, a nossa própria deificação.

É preciso retribuir todo esse amor
Quem não corresponderá com amor ao próprio Amor em Pessoa? Quem, remido, não se ajoelhará em adoração ante a fragilidade de um Redentor que Se faz pequeno para engrandecer os homens? Também nós, resta-nos retribuir esse mesmo amor ao Pequeno Rei que hoje Se nos entrega no mistério do altar.

O amor torna o amante semelhante ao amado, afirma o grande místico São João da Cruz. Para consolidar essa união é necessário, entretanto, que Um desça até o outro pela ternura, ou que o segundo suba até o Primeiro pela veneração. Jesus já desceu até nós pela compaixão, pelo afeto, pela ternura… Subamos até Ele, ou melhor, peçamos, por intercessão de sua Mãe Santíssima, que Ele mesmo nos faça subir.

Bem junto ao altar, entoando com os lábios o “Venite gentes et adorate” da Liturgia, cantemos com o coração nossa entrega sem reservas ao Menino Salvador.

1 Pio XII, Mediator Dei, n. 150. Sermo 1 in Nativitate Domini.
2 Sermo 1 in Nativitate Domini
3Liturgia das Horas. Antífona da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, I Vésperas.